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domingo, 24 de agosto de 2025 às 10:44 GMT+0

O poder do "zebu": Como o Brasil se tornou o gigante da carne e influencia a economia global

No coração do agronegócio brasileiro, em Uberaba, Minas Gerais, a Expozebu é mais que uma feira; é a vitrine de um modelo de negócio que elevou o Brasil ao topo da cadeia global de proteína animal. A protagonista indiscutível é a raça zebu, que, por meio de um aprimoramento genético contínuo, se transformou na base de um império de exportação.

Em 2024, o Brasil enviou mais de 2,9 milhões de toneladas de carne bovina para o mundo, consolidando sua liderança. Esta é a história de como o país utilizou um animal importado para construir um pilar de sua economia e se posicionar como um fornecedor-chave para a crescente demanda global por alimentos.

A ascensão do Zebu e a conquista dos Trópicos

A pecuária brasileira, que inicialmente utilizava gado europeu de menor porte, enfrentou um desafio crucial no século XIX: expandir a produção para as vastas regiões tropicais, onde o gado europeu não resistia ao calor, pragas e doenças. A solução veio da Índia, com a importação estratégica de gado zebu.

  • Adaptação estratégica: O zebu possui características fisiológicas únicas, como resistência a altas temperaturas e parasitas, tornando-o ideal para a pecuária extensiva tropical.
  • Base de uma economia: Entre 1893 e 1914, mais de 2 mil cabeças de zebu foram importadas da Índia. Esse movimento não apenas resolveu um problema logístico, mas estabeleceu a fundação de um sistema de produção eficiente e de baixo custo, que hoje permite ao Brasil competir globalmente.

O motor econômico da genética de ponta

O zebu importado foi apenas o começo. Através de décadas de cruzamentos seletivos e, mais recentemente, de avançadas técnicas de biotecnologia, os pecuaristas brasileiros desenvolveram animais de alto desempenho. A genética se tornou um negócio multimilionário, impulsionando a eficiência de toda a cadeia produtiva.

  • Valorização genética: A Expozebu é um mercado de luxo onde os melhores exemplares são leiloados por valores astronômicos. Em 2023, um animal foi vendido por R$ 25 milhões. Esses animais, como o famoso touro Gabriel (pai de mais de 600 mil bezerros), são utilizados para disseminar genes superiores, aumentando a produtividade e a qualidade do rebanho nacional.
  • Vantagem competitiva global: A genética brasileira é o grande diferencial. Ela garante um dos sistemas de produção de carne mais eficientes do mundo, baseado em pastagens. Essa eficiência se traduz em um menor custo de produção por quilo, permitindo que o Brasil mantenha sua competitividade em um mercado global cada vez mais exigente.

Ciência e expansão de mercado

O sucesso da pecuária brasileira não se limitou à genética. A ciência, liderada pela Embrapa, foi crucial para a expansão territorial e a consolidação do setor.

  • Tecnologia para o campo: A Embrapa desenvolveu pastagens mais resistentes, curas para doenças e técnicas para corrigir a acidez do solo. Isso permitiu que a fronteira pecuária se expandisse para o Centro-Oeste e a Amazônia, transformando vastas áreas em pastagens produtivas.
  • Influência política e econômica: A expansão da pecuária consolidou o setor como uma das forças econômicas e políticas mais influentes do país. Essa influência se reflete na capacidade do Brasil de negociar e abrir novos mercados, garantindo um fluxo constante de exportações.

Impactos ambientais e o cenário global

A ascensão do Brasil como potência pecuária vem acompanhada de desafios ambientais. A pecuária é uma grande emissora de gases de efeito estufa, principalmente pelo metano produzido pelo gado e pelo desmatamento para a criação de pastagens.

  • Metano e desmatamento: O metano, com um alto potencial de aquecimento, é um problema sério, assim como o desmatamento, que libera carbono e reduz a capacidade de absorção da floresta.
  • O zebu como solução parcial: O zebu é mais eficiente na conversão alimentar, o que significa que produz menos metano e consome menos pasto por quilo de carne em comparação com outras raças. Essa eficiência, embora não elimine o problema, posiciona o zebu como uma opção mais sustentável para a produção de proteína em um mundo preocupado com o clima.

Exportando genes e conhecimento

  • O Brasil não exporta apenas carne; exporta um modelo de negócio completo, desde a genética de ponta até a tecnologia de manejo. Com as mudanças climáticas aquecendo o planeta e desafiando a pecuária tradicional em outras regiões, a genética do zebu, adaptada ao calor e com alta eficiência, se tornará cada vez mais valiosa.

Essa expertise brasileira pode ser um ativo global para ajudar outras nações a se adaptarem e a produzirem alimentos em um mundo sob estresse. O Brasil, portanto, tem um papel fundamental na segurança alimentar global, não apenas por ser o maior exportador, mas também por ser um fornecedor de soluções genéticas e tecnológicas para a pecuária do futuro.

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