Polarização afetiva: Estudo de Oxford aponta como a percepção errada do adversário aumenta a polarização política entre Lulismo e Bolsonarismo
A polarização política se tornou uma das principais marcas da sociedade brasileira nos últimos anos. No entanto, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford sugere que parte desse conflito não surge apenas das diferenças ideológicas, mas também de percepções equivocadas sobre o que o grupo adversário realmente pensa. A pesquisa mostra que uma simples correção de informações pode reduzir a rejeição entre grupos políticos sem exigir que ninguém mude suas convicções.
O erro que alimenta a polarização
Os pesquisadores descobriram que lulistas e bolsonaristas costumam enxergar seus adversários como muito mais radicais do que realmente são.
Durante as eleições de 2022, por exemplo:
- Muitos bolsonaristas acreditavam que a grande maioria dos lulistas defendia a legalização do aborto, quando o apoio real era bem menor.
- Muitos lulistas imaginavam que poucos bolsonaristas apoiavam políticas de inclusão social, quando o apoio real era significativamente maior.
Essas distorções fazem com que cada grupo construa uma imagem exagerada e negativa do outro.
O que é polarização afetiva?
O estudo diferencia dois tipos de polarização:
1. Polarização ideológica: diferenças de opinião sobre temas políticos.
2. Polarização afetiva: antipatia, desconfiança e rejeição em relação ao grupo adversário.
Segundo os pesquisadores, o problema mais preocupante atualmente não é o aumento das divergências políticas, mas o crescimento da hostilidade entre pessoas que pensam diferente.
Como a informação reduz a rejeição
O experimento mostrou que, quando os participantes receberam dados reais sobre as opiniões do grupo oposto, a visão negativa diminuiu.
Ao perceberem que seus adversários não eram tão extremos quanto imaginavam:
- A rejeição política caiu.
- A tolerância aumentou.
- O diálogo se tornou mais fácil.
- As opiniões pessoais permaneceram praticamente as mesmas.
Ou seja, a redução da polarização não exigiu que as pessoas mudassem suas crenças, apenas que conhecessem melhor a realidade.
O papel das redes sociais
A pesquisa aponta que as redes sociais podem amplificar percepções equivocadas.
Isso acontece porque:
- Conteúdos mais radicais costumam ganhar mais visibilidade
- Informações são compartilhadas rapidamente sem verificação.
- Mensagens emocionais circulam com mais facilidade do que dados objetivos.
Como consequência, as pessoas passam a acreditar que o grupo adversário é mais radical do que realmente é.
Um efeito inesperado
- Além de reduzir a antipatia política, a correção de informações produziu outro resultado interessante.
- Alguns participantes passaram a adotar posições um pouco mais moderadas após descobrirem o que o outro grupo realmente pensava. Isso sugere que informações precisas podem não apenas diminuir conflitos, mas também aproximar parte da população de posições mais centristas.
O que o estudo revela para as eleições de 2026
Os pesquisadores acreditam que a disputa presidencial de 2026 tende a reproduzir a forte polarização observada em 2022.
Apesar disso, os dados mostram um ponto positivo: a polarização afetiva diminuiu após o período mais tenso do último ciclo eleitoral, indicando que a hostilidade política não é permanente e pode ser reduzida ao longo do tempo.
Lições para o debate público
O estudo sugere algumas atitudes capazes de diminuir a divisão política:
- Verificar informações antes de formar opiniões sobre o outro lado.
- Evitar generalizações e estereótipos políticos.
- Buscar dados reais em vez de confiar apenas em impressões ou redes sociais.
- Compreender que grupos políticos são mais diversos do que parecem.
"A maior ameaça ao debate não é a discordância, mas a intolerância. Quando o ódio ocupa o lugar da curiosidade, a verdade deixa de ser procurada e passa a ser moldada para servir a interesses. Nesse cenário, ninguém dialoga para aprender, todos falam para vencer; ninguém busca compreender, todos buscam ter razão. E onde a razão se torna mais importante que a verdade, o debate deixa de existir e transforma-se apenas em um espetáculo de preconceitos, certezas e hostilidade."
A pesquisa da Universidade de Oxford indica que a polarização política é alimentada, em grande parte, por percepções distorcidas sobre quem pensa diferente. Ao mostrar que adversários políticos costumam ser menos radicais do que imaginamos, o estudo revela uma solução simples e poderosa: mais informação de qualidade. Em vez de tentar mudar as convicções das pessoas, a estratégia consiste em reduzir preconceitos, fortalecer a compreensão mútua e criar condições para um debate público mais racional e menos hostil.
