Javier Cercas (2026): Minha mãe verá meu pai após a morte? A pergunta que levou um ateu ao coração do Vaticano
Acompanhando o papa Francisco em uma viagem à Mongólia, o escritor espanhol Javier Cercas viveu uma experiência rara: acesso irrestrito ao Vaticano para observar, perguntar e escrever com total liberdade. Ateu declarado, anticlerical e racionalista, Cercas aceitou o convite movido menos pela fé e mais por uma inquietação íntima e humana: oferecer à mãe, profundamente religiosa, algum tipo de consolo diante da morte do pai.
O resultado dessa jornada é O Louco de Deus no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), livro que mistura reportagem, romance, ensaio filosófico e confissão pessoal. A obra serve como ponto de partida para uma reflexão contundente sobre religião, poder, fé, literatura e o futuro do cristianismo em um mundo que, segundo o autor, já não acredita em grandes verdades absolutas.
Um escritor ateu em busca de uma resposta impossível
- Cercas nunca escondeu sua posição: perdeu a fé na adolescência e jamais voltou a recuperá-la. Ainda assim, aceitou acompanhar o papa Francisco porque carregava uma pergunta simples e devastadora: sua mãe reencontraria o marido após a morte?
- Essa dúvida, ao mesmo tempo íntima e universal, atravessa todo o livro. Não se trata apenas de religião, mas da dificuldade humana de lidar com a finitude, da nostalgia por um sentido último da existência e do vazio deixado pela morte de Deus no pensamento moderno.
Um romance policial sobre a vida eterna
- O autor define o livro como um romance policial — não no sentido clássico, mas porque há um enigma central a ser decifrado. Esse mistério não envolve crimes ou culpados, mas a ressurreição da carne e a promessa da vida eterna, pilares do cristianismo.
- Para Cercas, toda grande obra literária nasce de uma pergunta sem resposta definitiva. Assim como em Dom Quixote, há um personagem obcecado por compreender algo que talvez não possa ser compreendido.
Vivemos em um mundo sem Deus
- Segundo Cercas, o Ocidente vive hoje sem um grande relato capaz de dar sentido à totalidade da vida, como fazia a religião durante séculos. A ruptura, simbolizada pela famosa declaração de Nietzsche:
“Deus está morto”, deixou um vazio que nunca foi plenamente preenchido. - Tentativas de substituição, como o marxismo ou a psicanálise, falharam em oferecer uma explicação totalizante. O resultado é um mundo fragmentado, no qual cada indivíduo busca sentido de maneira isolada, seja na política, na arte, no consumo ou em espiritualidades alternativas.
Literatura como substituto da fé
- Ao perder Deus, Cercas tentou preencher o vazio com a literatura. Reconhece que foi um erro, no sentido estrito, porque a literatura não oferece certezas nem consolo absoluto. Ainda assim, ela se tornou uma forma de transcendência, uma busca permanente que, embora inquietante, produz sentido.
- Não por acaso, muitos escritores modernos se viram como “sacerdotes da arte”, atribuindo à criação literária uma função quase espiritual em um mundo secularizado.
O cristianismo e sua aliança fatal com o poder
- Um dos pontos centrais da crítica de Cercas é o chamado constantinismo: a fusão entre Igreja e Estado iniciada no Império Romano. Para ele, essa união foi desastrosa e está na raiz da deformação do cristianismo original.
- Jesus, afirma Cercas, era subversivo, perigoso e profundamente revolucionário: Pregava igualdade em um mundo escravocrata, caminhava com os excluídos e confrontava o poder político e religioso. O cristianismo que se aliou ao poder, segundo o autor, traiu essa essência.
Clericalismo: O câncer da Igreja
- Cercas ecoa uma das grandes batalhas do papa Francisco: o combate ao clericalismo. A ideia de que o clero está acima dos fiéis, segundo o escritor, é responsável por muitos dos males da Igreja, inclusive os escândalos de abuso sexual, que ele define como abusos de poder.
- Francisco defendia uma Igreja na qual o sacerdote caminha com o povo, nunca acima dele: Essa visão, afirma Cercas, é radicalmente anticlerical e profundamente evangélica.
Francisco, Leão 14 e o futuro da Igreja
- Na avaliação de Cercas, o papa Francisco foi um reformador impetuoso, que “armou confusão” e deixou uma Igreja dividida. Seu sucessor, Leão 14, segue a mesma direção teológica, mas com um estilo mais clássico e conciliador.
- Missionário e conhecedor da cúria, o novo papa representa uma tentativa de unir tradição e reforma, acalmando tensões internas sem abandonar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II.
O Vaticano real versus o Vaticano imaginado
- Ao entrar no Vaticano, Cercas percebeu o quanto suas expectativas estavam contaminadas por clichês e lendas. Não encontrou conspirações secretas ou mistérios ocultos, mas uma instituição complexa, contraditória e profundamente humana.
- O humor, segundo ele, foi essencial para narrar essa experiência. Para Cercas, o humor é uma forma séria de inteligência e também uma das marcas do próprio papa Francisco.
A fé como superpoder e como mistério
- Embora não seja crente, Cercas admite sentir inveja da fé autêntica, especialmente a de sua mãe: Para ele, a fé oferece serenidade e força que não podem ser fingidas ou adquiridas por vontade própria.
- A fé, diz o autor, não é uma escolha racional. Ou ela existe, ou não: E justamente por isso, talvez seja mais difícil tê-la do que não tê-la.
Arte, linguagem e transcendência
- Cercas reconhece a Bíblia como uma obra literária monumental e lembra o papel decisivo da arte na propagação da fé cristã. Catedrais, música sacra e pintura foram, durante séculos, instrumentos de sedução espiritual.
- Hoje, porém, a Igreja enfrenta um grave problema de linguagem: seus discursos envelheceram, tornaram-se herméticos e perderam capacidade de encantamento. Em contraste, Jesus seduzia tanto por suas ações quanto por suas palavras.
A mãe como centro da narrativa
- Apesar de o Papa parecer o protagonista do livro, Cercas deixa claro que a figura central é sua mãe. A fé dela, simples e inabalável, representa aquilo que o autor perdeu e jamais conseguiu recuperar.
- A pergunta que move o livro, se ela reencontraria o marido após a morte é no fundo, a pergunta central do cristianismo e uma das grandes questões da humanidade.
O valor da incerteza
- O Louco de Deus no Fim do Mundo não é um livro religioso, tampouco um ataque à fé. É uma investigação honesta sobre o que resta do cristianismo em um mundo secular, sobre a persistência da Igreja após dois milênios e sobre o desejo humano de não desaparecer.
Para Javier Cercas, a força do cristianismo está em sua rebelião contra a morte e na promessa de continuidade. Mesmo sem acreditar plenamente nela, o autor reconhece o poder dessa promessa talvez o verdadeiro “superpoder” que mantém viva uma das instituições mais antigas e influentes da história.
