Curling em Milão-Cortina 2026: O enigma científico que intriga pesquisadores há mais de 100 anos
O curling é um dos esportes mais tradicionais dos Jogos Olímpicos de Inverno e, ao mesmo tempo, um dos mais enigmáticos do ponto de vista científico. Surgido no século 16, em lagos congelados da Escócia, o esporte consiste em lançar uma pedra de granito que desliza sobre o gelo em direção a um alvo chamado “casa”, enquanto companheiros varrem a superfície à sua frente para controlar velocidade e trajetória.
Como funciona o curling na prática
A pedra não é comum
- As pedras de curling são feitas de granito extremamente resistente, extraído tradicionalmente de locais específicos na Escócia e no País de Gales. Elas têm base côncava, com uma estreita faixa de contato chamada “faixa de rolamento”. Apenas essa borda toca o gelo, o que reduz a área de contato e influencia diretamente o atrito.
O gelo é preparado de forma especial
- Diferentemente de uma pista de patinação lisa, o gelo do curling é “granulado”. Pequenas gotas de água são borrifadas e congeladas, formando microelevações chamadas de “seixos”.
- Esse relevo reduz a área de contato da pedra com o gelo, diminuindo o atrito e permitindo que ela deslize por longas distâncias. Sem essa preparação, a pedra perderia velocidade muito rapidamente.
O papel da água e do atrito
Quando a pedra desliza, o atrito aquece levemente o gelo, criando uma finíssima camada de água que funciona como lubrificante.
O movimento pode ser dividido em três fases:
1.** Fase inicial**: maior velocidade e mais água derretida, permitindo um deslizamento quase em linha reta.
2. Fase intermediária: diminuição da água e aumento do contato sólido com o gelo; é aqui que a curva começa a se acentuar.
3. Fase final: praticamente sem água, com atrito seco, levando à parada completa.
O grande mistério: Por que a pedra curva?
Se a pedra é lançada com rotação no sentido horário, ela termina curvando para a direita. Isso parece contrariar a intuição física comum. Em experimentos simples com objetos deslizando em outras superfícies, a curva tende a ocorrer no sentido oposto à rotação.
Essa aparente contradição intrigou cientistas desde o início do século 20.
Primeiras teorias
- Em 1924, o cientista canadense E. L. Harrington propôs a teoria da assimetria esquerda-direita: a rotação geraria pequenas diferenças de atrito entre os lados da pedra, produzindo a curva.
- Apesar de pioneira, a explicação não resolvia todos os aspectos observados na prática.
Modelos modernos
Ao longo das décadas, surgiram diversas hipóteses:
- Modelo da camada de água
- Modelo do limpa-neve
- Mecanismo de deslizamento e aderência
- Teoria do guiamento por arranhão
Nenhuma delas conseguiu explicar completamente o fenômeno de forma consensual.
A teoria do ponto de pivô
- Em 2022, o físico Jiro Murata, da Universidade Rikkyo, propôs uma abordagem baseada em observação detalhada por vídeo. Ele sugeriu que a rotação da pedra não “empurra” lateralmente por si só. Em vez disso, cria diferenças de atrito que funcionam como um ponto de pivô no gelo.
- Segundo essa visão, quando uma parte da base da pedra “agarra” mais o gelo, ela atua como um eixo temporário, fazendo a pedra girar em torno desse ponto — semelhante a alguém correndo enquanto segura um poste lateralmente.
- Essa hipótese se aproxima da teoria original de 1924, mas com base experimental mais refinada.
A influência da varrição
A varrição não serve apenas para aumentar a distância percorrida. Ao esfregar o gelo, os jogadores:
- Aumentam levemente a temperatura da superfície.
- Geram mais água.
- Alteram o nível de atrito em áreas específicas.
Experimentos recentes indicam que varrer na parte externa da curva pode aumentar o ângulo de curvatura. Isso ocorre porque a redução do atrito nessa área faz com que o lado oposto exerça maior influência como ponto de pivô.
O avanço tecnológico nas escovas levou inclusive a mudanças nas regras. Em 2016, após o chamado “broomgate”, a Federação Mundial de Curling restringiu materiais que poderiam arranhar o gelo e criar vantagens artificiais. Em 2026, novas limitações foram implementadas para padronizar os movimentos de varrição.
Por que ainda não há consenso?
Apesar de um século de pesquisas, o curling continua sendo um desafio científico porque envolve múltiplas variáveis simultâneas:
- Estrutura microscópica do gelo
- Temperatura e umidade do ambiente
- Microfraturas na superfície
- Textura da pedra
- Quantidade exata de água formada durante o deslizamento
Pequenas diferenças nessas condições podem alterar significativamente o comportamento da pedra, tornando difícil criar um modelo matemático universalmente aceito.
No gelo, um mistério em movimento: A física ainda não decifrada do curling
O curling revela que nem mesmo séculos de prática e tecnologia de ponta foram suficientes para desvendar totalmente seus segredos: a delicada interação entre gelo granulado, granito, água microscópica, atrito e rotação produz uma curva que desafia explicações definitivas da ciência moderna. Apesar de câmeras de alta precisão e modelos físicos avançados, o movimento da pedra continua sem consenso absoluto — e é justamente essa fusão entre tradição histórica, estratégia milimétrica e mistério científico que transforma o curling em um dos esportes mais intrigantes dos Jogos de Inverno, onde a física, paradoxalmente, ainda escapa ao controle total.
