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quinta-feira, 3 de julho de 2025 às 10:41 GMT+0

O duelo Lula vs. Milei: O que está em jogo na cúpula do Mercosul?

Nesta quinta-feira (3/7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da Cúpula do Mercosul em Buenos Aires, onde assumirá a presidência do bloco, sucedendo o argentino Javier Milei. O encontro ocorre em um cenário de tensões históricas entre os dois líderes, marcado por divergências ideológicas, provocações públicas e desafios diplomáticos. Apesar disso, Brasil e Argentina mantêm laços comerciais e estratégicos que exigem cooperação. Este resumo explora os quatro pontos centrais dessa relação complexa, com base em análises de especialistas e fontes como BBC News Brasil, The Economist e declarações oficiais.

1. Histórico de animosidade e provocações públicas:

  • Origens do conflito: Milei, autointitulado "anarcocapitalista", começou a atacar Lula ainda durante a campanha eleitoral argentina em 2023, chamando-o de "comunista nervoso" e acusando-o (sem provas) de financiar seu adversário, Sergio Massa. Lula respondeu sugerindo que a Argentina precisava de um líder "que gostasse de democracia".
  • Crises diplomáticas: Lula não compareceu à posse de Milei em dezembro de 2023, enquanto Jair Bolsonaro participou e sentou-se entre chefes de Estado. A relação ficou ainda mais fragilizada quando Milei, durante sua presidência temporária do Mercosul, priorizou agendas alinhadas à direita brasileira, como a Conferência de Ação Política Conservadora (CAPC) em Santa Catarina, em vez de eventos oficiais do bloco.
  • Encontros frios: A única interação presencial ocorreu durante o G20 no Brasil (2024), resultando em uma foto protocolar sem sorrisos, contrastando com a receptividade calorosa de Lula a outros líderes, como Emmanuel Macron (França) e Gabriel Boric (Chile).

A tensão reflete a polarização ideológica na América Latina, mas também a necessidade de manter relações diplomáticas funcionais entre os dois maiores parceiros econômicos da região.

2. Mercosul: Divergências e interesses comuns:

  • Posições antagônicas: Milei critica o Mercosul desde sua campanha, alegando que o bloco "empobrece os argentinos" e beneficia industriais brasileiros. Ele ameaçou retirar a Argentina do grupo para buscar acordos bilaterais com os EUA — algo visto como improvável por especialistas, como Regiane Bressan (Unifesp), devido à fragilidade econômica argentina.
  • Acordo com a União Europeia: Ambos os presidentes, apesar das diferenças, apoiam a ratificação do tratado de livre-comércio entre Mercosul e UE, negociado há 20 anos. Oliver Stuenkel (FGV) destaca que o acordo fortaleceria o bloco e as economias nacionais, criando um raro ponto de convergência.
  • Presidência brasileira: Com Lula no comando, espera-se maior avanço nas negociações, enquanto Milei terá de equilibrar sua retórica antimercosul com os benefícios práticos do bloco.

O Mercosul é vital para a integração regional, e suas decisões impactam desde o combate ao narcotráfico até a redução de barreiras comerciais.

3. O jogo diplomático e a pragmática coexistência:

  • Estratégias de discurso: Para evitar crises, ambos evitam temas polêmicos em encontros oficiais. O chanceler Mauro Vieira afirmou que o foco da cúpula será técnico, não político.
  • G20 como exemplo: No encontro de 2024, Milei inicialmente se opôs a menções à taxação de super-ricos e igualdade de gênero no documento final, mas acabou cedendo — um sinal de que a pressão diplomática pode superar divergências.
  • Visita a Cristina Kirchner: Lula avalia visitar a ex-presidente argentina, presa por corrupção, o que seria um gesto simbólico de apoio ao peronismo, mas potencialmente desgastante para as relações com Milei.

A diplomacia exige equilíbrio entre ideologia e interesses nacionais, especialmente em um contexto de desgaste político interno para Lula (com 40% de desaprovação, segundo Datafolha) e de experimentos econômicos radicais de Milei.

4. Alinhamentos globais e o espectro bolsonarista:

  • Milei e Trump: O argentino espelha sua agenda no ex-presidente americano, com ataques ao ambientalismo, apoio a Israel e restrições migratórias. Em abril de 2025, Milei insinuou que sua relação com Trump evitou tarifas maiores contra o Brasil — alegação desmentida pelo chanceler Mauro Vieira.
  • Bolsonaro como peça-chave: A ausência de Bolsonaro na posse de Trump (devido a restrições judiciais) foi lamentada por Milei, que a atribuiu ao "regime de Lula", reforçando o alinhamento com a direita brasileira.
  • Alianças internacionais de Milei: Figuras como Trump e Benjamin Netanyahu (Israel) contrastam com a política externa multipolar de Lula, ampliando as fissuras ideológicas.

A relação Lula-Milei é um microcosmo dos desafios da América Latina: como conciliar governos antagônicos sem comprometer cooperações essenciais. Enquanto as farpas dominam o noticiário, os dois líderes sabem que o comércio bilateral (US$ 26 bilhões em 2024) e a estabilidade regional dependem de diálogo. A cúpula do Mercosul pode ser um teste de pragmatismo, mostrando se as críticas ao bloco são mais retórica do que ação. Para o Brasil, a prioridade será avançar no acordo com a UE; para a Argentina, gerenciar uma crise econômica sem isolamento internacional. O episódio reforça que, na política, inimizades pessoais raramente sobrevivem aos imperativos da realidade.

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