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sábado, 3 de janeiro de 2026 às 10:16 GMT+0

“A mente tem cor”: Por que o racismo na ciência ainda é o segredo mais bem guardado das universidades?

Quando pensamos em um cientista, muitas vezes imaginamos alguém de jaleco branco, em um laboratório, analisando dados de forma totalmente imparcial. No entanto, os professores Ulysses Paulino de Albuquerque e Rodrigo Felipe Rodrigues do Carmo nos mostram que essa "neutralidade" é um mito.

A ciência é feita por pessoas, e as pessoas carregam histórias, cores e cicatrizes. Este texto explica como a estrutura das nossas universidades ainda tenta apagar a identidade negra e por que lutar contra isso é fundamental para o futuro do Brasil.

A armadilha do termo "pardo" e o poder de dar nome a si mesmo

Muitas pessoas estranham quando alguém se identifica como "negro de pele clara". No Brasil, o termo "pardo" foi usado historicamente para criar uma zona cinzenta, onde a negritude é suavizada.

  • O que os autores explicam: Aceitar o rótulo de "pardo" pode ser uma forma de apagamento. Ao se declarar preto, o pesquisador retira a "máscara" da neutralidade e força a sociedade a reconhecer que ele está ali, ocupando um espaço que historicamente lhe foi negado. Nomear-se é o primeiro passo para não ser invisível.

O "embranquecimento" dentro da universidade

Você já sentiu que precisava mudar seu jeito de falar ou agir para ser aceito em um ambiente sério? Na ciência, isso acontece através do Eurocentrismo.

  • O que isso significa: A ciência que aprendemos costuma ter como base apenas o que foi produzido na Europa e nos EUA. Isso cria uma pressão para que o cientista negro abandone suas raízes, seus saberes ancestrais e sua cultura para ser considerado "objetivo" ou "profissional". Os autores chamam isso de "cativeiro intelectual": você é aceito, desde que performe como uma pessoa branca.

O racismo que ignora o diploma

Um dos pontos mais impactantes do depoimento é mostrar que o título de "Doutor" ou "Professor Titular" não protege ninguém do racismo nas ruas.

  • A realidade cotidiana: Os autores relatam episódios de serem seguidos em lojas ou verem seus filhos serem abordados pela polícia por "não terem o perfil" de quem dirige um bom carro.
  • A mente tem cor: Ao contrário do que dizem alguns profissionais de saúde mental ("a mente não tem cor"), as experiências de medo e exclusão moldam a forma como uma pessoa negra pensa e vive. Ignorar isso é ignorar a própria humanidade do pesquisador.

Ocupar espaço vs. Ter autoridade

Não basta apenas ter negros na universidade; é preciso que eles tenham o direito de narrar o mundo.

  • Protagonismo: Por muito tempo, a população negra foi objeto de estudo da ciência. Agora, a luta é para que sejam os autores das pesquisas, trazendo suas próprias experiências e visões de mundo (o que chamamos de autoridade epistêmica).
  • O custo emocional: Ocupar esses espaços gera uma luta constante contra o sistema e contra a "síndrome do impostor", aquela sensação de que você não merece estar ali, fruto de séculos de exclusão.

A transformação que ainda precisamos

  • A verdadeira mudança não termina com as cotas. Elas são a porta de entrada, mas a justiça real só acontecerá quando a ciência brasileira for plural de verdade. Isso exige combater a "branquitude estratégica" aquelas pessoas que tentam burlar o sistema de cotas para manter seus privilégios.

"A verdadeira luta contra o racismo estrutural não se faz com performances que buscam o palco, mas com a coragem de enfrentar o sistema. Quando a militância é usada como acessório para o ego ou para benefícios próprios, ela não apenas trai a história de quem veio antes de nós, mas fortalece as mesmas engrenagens de exclusão que diz combater. A justiça racial exige integridade: não se trata de parecer maior que o outro, mas de garantir que nenhum corpo negro seja diminuído pelo silêncio ou pela conveniência de quem finge lutar enquanto apenas se serve da causa."

Reconhecer que o racismo existe na ciência não a enfraquece; pelo contrário, a torna mais honesta e capaz de resolver os problemas reais de uma sociedade diversa como a nossa. O conhecimento deve servir para libertar, não para colonizar mentes.

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