Conteúdo verificado
domingo, 25 de maio de 2025 às 10:58 GMT+0

Bebês Reborn: Por que mulheres adultas cuidam de bonecas? Psicanalista explica críticas, machismo e o peso da maternidade idealizada

O fenômeno dos bebês reborn — bonecos hiper-realistas tratados como crianças reais por algumas mulheres — tem gerado debates acalorados nas redes sociais e na mídia. Enquanto alguns enxergam a prática como um hobby inofensivo ou até terapêutico, outros a criticam como uma distorção da maternidade. A psicanalista Thaís Basile, em entrevista à BBC News Brasil, analisa o tema sob um viés social, destacando como a reação à prática revela machismo, sobrecarga feminina e a romantização da maternidade.

A dualidade de critérios: Hobbies masculinos x femininos

Basile questiona por que hobbies considerados "imaturos" são aceitos quando praticados por homens (como colecionar action figures ou se fantasiar de heróis), mas geram escárnio quando envolvem mulheres e bonecas. Ela cita o exemplo das sex dolls, mercado majoritariamente masculino, que não recebe a mesma patologização. A crítica, segundo ela, expõe uma misoginia enraizada: mulheres são julgadas por desviarem do papel de "cuidadoras reais".

  • Evidencia a desigualdade de gênero na percepção de hobbies.
  • Mostra como a sociedade tolera menos comportamentos lúdicos em mulheres.

Bebês reborn como sintoma social

Para Basile, a popularidade desses bonecos reflete:

  • Maternidade compulsória: Mulheres são socializadas desde cedo para o cuidado (de irmãos, pais, filhos e pets), muitas vezes sacrificando sua própria infância.
  • Fuga da realidade: Cuidar de um objeto inanimado permite viver a fantasia de uma "maternidade perfeita", sem cobranças ou conflitos.
  • Fetichização da infância: Assim como bebês reais são expostos nas redes sociais por pais em busca de validação, os reborn reproduzem esse desejo de idealização, mas sem a complexidade de uma criança real.

Dados importantes:

  • A exposição de crianças nas redes é criticada por Basile como "exploração", já que os algoritmos premiam esse conteúdo, incentivando a monetização da imagem infantil.

  • O Brasil registrou em 2023 o menor número de nascimentos em 45 anos, contexto que amplia a pressão social sobre a maternidade.

Críticas e projetos de lei: Desvio de foco?

Basile critica parlamentares que propõem leis para proibir o uso de reborns em filas preferenciais ou hospitais, argumentando que isso é "surfar na polêmica" enquanto faltam políticas públicas para mães reais. Ela destaca:

  • 11 milhões de mães solo no Brasil enfrentam precariedade financeira e violência.
  • Leis urgentes, como ampliação da licença-paternidade ou combate à violência obstétrica, são negligenciadas.

A discussão sobre os reborns eclipsa problemas reais das mulheres, como a sobrecarga de cuidados e a falta de apoio estatal.

Reborns e luto: Um recurso válido?

Algumas mulheres usam os bonecos para lidar com perdas gestacionais. Basile ressalta que, embora possam ser um apoio lúdico, o processo de luto exige relações humanas e acompanhamento terapêutico.

"Bonecas não substituem a elaboração da perda", afirma.

Um sintoma a ser decifrado

O fenômeno dos reborns não é apenas sobre "mulheres e bonecas", mas um reflexo de:

  • Uma sociedade que sobrecarrega as mulheres com o cuidado.
  • A busca por um ideal inatingível de maternidade.
  • A falta de espaços para que mulheres exerçam a fantasia e a imaturidade, como os homens fazem.

"Os bebês reborn não são o problema — são um sintoma. Um sintoma de que estamos falhando com as mulheres: cobramos que sejam cuidadoras perfeitas de seres reais, mas as julgamos quando buscam afeto sem cobranças. Sim, há riscos nessa fantasia, mas a raiz está na solidão de quem cuida e muitas vezes não é cuidada."

Em vez de ridicularizar ou patologizar essas mulheres, Basile propõe olhar para o contexto maior: a necessidade de repensar a distribuição de cuidados, apoiar mães reais e questionar por que a maternidade — real ou fantasiosa — segue sendo um campo tão policiado.

Estão lendo agora

Evangélicos perdem força no Brasil? O impacto da política e o novo retrato religioso no CensoO censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou uma desaceleração no crescimento evangéli...
Escolas cívico-militares no Brasil: Reduzem violência ou ameaçam a democracia? Entenda os prós econtrasA implantação de escolas cívico-militares no Brasil tem gerado debates acalorados sobre seu papel na educação pública. E...
20 anos depois: Oscar de Crash: No limite sobre Segredo de Brokeback Mountain ainda é visto como uma das maiores polêmicas do cinemaEm 5 de março de 2006, durante a 78ª cerimônia do Oscar, aconteceu um dos momentos mais surpreendentes da história da pr...
Os brasileiros são viciados em açucar? Uma relação doce e perigosa explicadaO Brasil é um país marcado por uma paixão inconfundível por doces, desde o tradicional brigadeiro até as recentes "febre...
Handebol de praia: Regras, história e como o Brasil dominou este esporte dinâmicoO handebol de praia, também conhecido como beach handball, é uma modalidade esportiva vibrante que combina a agilidade d...
Antissemitismo vs. Antissionismo: Entenda as diferenças, história e impacto atualNo contexto atual, marcado pelo conflito entre Israel e Hamas, termos como antissemitismo e antissionismo ganharam desta...
Decameron: A obscena obra que quebrou tabus sexuais da Idade Média e desafiou a igrejaEscrito por Giovanni Boccaccio no século XIV, o Decameron é uma coletânea de cem histórias contadas por dez jovens arist...
Hiperdiagnóstico de TDAH: Como diferenciar o transtorno de outras condições e os perigos de um diagnóstico erradoNos últimos anos, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) tem sido amplamente discutido, especialme...
Seus amigos sugam sua energia? Dicas de como identificar e lidar com "vampiros sociais"Imagine terminar um encontro com um amigo e se sentir mais cansado do que quando chegou, como se sua energia vital tives...
Crença do "arrebatamento": Por que as profecias do fim do mundo se espalham tão rápido?Em um mundo cada vez mais complexo e incerto, a busca por significado e esperança se intensifica. Em setembro de 2025, u...
De estudantes a bilionários aos 22 anos: O fenômeno dos "bilionários instantâneos" - Como a IA está criando fortunas em tempo recordeO ano de 2025 consolidou a Inteligência Artificial (IA) não apenas como uma revolução tecnológica, mas como o motor de c...
7 de Setembro em Brasília: Risco de conflito? Entenda a estratégia de segurança para 2025.Segurança e Estratégia no 7 de Setembro de 2025: Entenda o Esquema em Brasília O feriado de 7 de Setembro de 2025, data ...