China envelhece antes de enriquecer: Por que o "baby boom" fracassou e a natalidade despencou em 2026
A China enfrenta hoje um de seus maiores desafios históricos: uma crise demográfica que desafia as previsões mais pessimistas do próprio governo. Apesar de uma série de incentivos e da transição para políticas que permitem até três filhos, o país registrou em 2025 o menor índice de natalidade desde a fundação da República Popular em 1949.
O colapso dos números e as previsões furadas
As autoridades chinesas esperavam um "baby boom" após o fim da política do filho único, mas o que se viu foi um declínio constante e acentuado.
- Recordes negativos: Em 2025, a taxa de natalidade caiu para 5,63 nascimentos por 1 mil habitantes. Para se ter uma ideia, foram apenas 7,92 milhões de nascimentos no ano passado, contra uma queda populacional total de 3,4 milhões de pessoas.
- Erro de cálculo: Há duas décadas, o governo previa que o pico populacional ocorreria apenas em 2033. No entanto, o ápice chegou 12 anos antes do esperado, evidenciando que os especialistas subestimaram a velocidade das mudanças sociais.
- Projeção drástica: Especialistas da ONU estimam que, se o ritmo atual persistir, a China poderá perder mais da metade de sua população até o fim deste século.
O legado social: Entre "galhos vazios" e "solteironas"
A herança da política do filho único (1979-2015) criou um desequilíbrio de gênero profundo que agora alimenta a crise de solteiros.
- Homens "sobrando": A preferência cultural por filhos homens levou a milhões de abortos seletivos no passado. Hoje, o país possui dezenas de milhões de homens a mais do que mulheres. Eles são chamados pejorativamente de "galhos vazios", uma metáfora para árvores que não darão frutos.
- As "shèngnǚ": Por outro lado, mulheres com alta escolaridade e carreiras consolidadas estão optando por casar mais tarde ou permanecer solteiras. O Estado tentou pressioná-las rotulando-as como "shèngnǚ" (mulheres que sobraram), mas a tática gerou resistência e afastamento.
- A janela de fertilidade: Em 2023, 43% das mulheres entre 25 e 29 anos eram solteiras, o que reduz drasticamente a probabilidade de um aumento súbito na taxa de natalidade.
Por que os incentivos governamentais falharam?
O governo tentou usar o "bolso" para convencer os jovens, mas esqueceu que o custo de vida e a cultura de trabalho pesam muito mais.
- A polêmica "taxa das camisinhas": Em uma medida desesperada e controversa, foi criado um imposto de 13% sobre contraceptivos (preservativos e pílulas) em 2026. A medida foi duramente criticada por ignorar riscos de saúde pública e gravidez indesejada, sem resolver a causa raiz do problema.
- Incentivos insuficientes: Bônus anuais de cerca de US$ 500 por filho são vistos como irrelevantes diante dos custos exorbitantes de educação e moradia nas grandes metrópoles.
- Cultura de trabalho exaustiva: Relatos de profissionais indicam que a "regra implícita" nas empresas é que a vida familiar não deve interferir na produtividade. Sem redes de apoio (como creches acessíveis) e com maridos ausentes devido ao trabalho, muitas mulheres consideram o segundo filho um fardo impossível de carregar.
O dilema chinês: Envelhecer antes de enriquecer
Diferente de países como Japão ou nações da Europa, que também enfrentam baixas taxas de natalidade, a China corre o risco de ver sua força de trabalho minguar antes de consolidar uma rede de proteção social robusta para idosos.O esvaziamento da mão de obra pode gerar um efeito cascata global, aumentando custos de produção e afetando o consumo mundial. O grande desafio de Pequim agora não é apenas oferecer bônus ou taxar preservativos, mas reformular uma estrutura social que penaliza quem decide ter uma família.
Nota crítica: A tentativa de forçar o crescimento populacional via taxas sobre contraceptivos parece um retrocesso que foca no sintoma, não na doença. O jovem chinês atual prioriza estabilidade e qualidade de vida, valores que colidem com as pressões demográficas do Estado.
