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domingo, 7 de setembro de 2025 às 12:13 GMT+0

Da exclusão à compaixão: "Ala dos Suicidas" no Judaísmo - Entenda a tradição, a polêmica e porque foi abandonada

A história da psicóloga Iara Iavelberg, tragicamente morta em 1971, serve como um poderoso ponto de partida para entender como uma antiga tradição judaica foi transformada. A ditadura militar, ao classificar sua morte como suicídio, destinou seu corpo a um espaço segregado no Cemitério Israelita do Butantã, a "ala dos suicidas".

A batalha travada por sua família, com o apoio do rabino Henry Sobel, não foi apenas para honrar a memória de Iara, mas também um confronto simbólico com essa prática milenar. A prova, em 2003, de que ela foi assassinada, levou a uma reintegração póstuma, com seu corpo sendo realocado ao lado de seus pais, um ato que marcou o início de uma nova era.

O que acontecia e por quê? A tradição antiga e a segregação

Por séculos, o judaísmo, assim como outras religiões, tratou o suicídio como um tabu. A crença era que, ao tirar a própria vida, a pessoa negava o dom de Deus. Essa interpretação resultava em:

  • Sepultamento à parte: Os corpos eram enterrados em espaços separados, muitas vezes próximos aos muros do cemitério, simbolizando o isolamento da comunidade.
  • Restrição de rituais: Rituais de luto, tradicionalmente realizados para honrar os falecidos e confortar a família, eram negados ou limitados.

A mudança: Um sinal dos tempos

O que antes era uma proibição estrita, hoje foi substituído pela compaixão. As principais instituições judaicas do Brasil e do mundo abandonaram a prática de segregar suicidas, uma mudança impulsionada por dois fatores principais:

1. Avanço da ciência: A compreensão sobre saúde mental, com o reconhecimento de doenças como a depressão, transformou a visão do ato, que deixou de ser visto como uma escolha e passou a ser encarado como o resultado de um sofrimento profundo.

2. Uma nova visão teológica: A ideia de que "cabe apenas a Deus julgar" ganhou força, liberando a comunidade do papel de juíza e incentivando a empatia.

O poder da discussão: Como o judaísmo evoluiu

Ao contrário de religiões com uma hierarquia centralizada, a transformação no judaísmo aconteceu de forma orgânica e através do debate.

  • Tradição do debate: O judaísmo é uma religião baseada na discussão e na reinterpretação dos textos sagrados. Rabinos de diferentes correntes se uniram em torno de uma nova abordagem, mais compassiva.
  • Consenso pela compaixão: Hoje, a conduta de não segregar é praticamente unânime entre as diferentes correntes judaicas, mostrando que a empatia pode transcender dogmas e antigas interpretações.

Lições para a sociedade e outras religiõeshttps://www.bbc.com/portuguese/articles/cn0e668g7deo

A história da "ala dos suicidas" no judaísmo vai muito além da religião. Ela oferece lições valiosas para todos, especialmente no contexto atual, onde as taxas de suicídio têm crescido no Brasil.

  • Combate ao estigma: A mudança de postura do judaísmo envia uma mensagem poderosa: é preciso substituir o julgamento pela empatia.
  • Papel da religião: A religião pode ser um fator de proteção ao oferecer apoio, mas pode se tornar um risco se focar na culpa e na exclusão. O abandono da segregação é um exemplo de como as instituições religiosas podem se adaptar para acolher, não para julgar.

A jornada do judaísmo, da exclusão à compaixão, mostra que as tradições religiosas podem e devem evoluir. Ao priorizar o acolhimento, elas se tornam faróis de esperança, combatendo o tabu do suicídio e construindo uma sociedade mais humana e solidária.

Como buscar ajuda:

  • O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento ao redor do Brasil
  • Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar
  • Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190)
  • Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192
  • Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h
  • Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.
  • Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.

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