Filosofia do "nada": Jean-Paul Sartre e a liberdade radical - Entenda por que você é o que escolhe ser - Mais livre em 2026
A virada de ano costuma vir acompanhada de promessas, metas e uma pressão invisível para seguirmos roteiros preestabelecidos. No entanto, o pensamento de Jean-Paul Sartre, um dos maiores nomes do existencialismo, oferece uma perspectiva diferente e revigorante: a ideia de que não nascemos com um propósito definido e que essa ausência de um "molde" é, na verdade, a nossa maior ferramenta de liberdade.
Ao contrário do que a palavra pode sugerir, o "nada" sartreano não é um vazio pessimista, mas sim um espaço de potencial infinito. Entender que somos uma tela em branco permite que cada decisão tomada a partir de agora seja um ato de criação pessoal, e não apenas o cumprimento de um destino.
A existência precede a essência: Você é o que escolhe ser
Para Sartre, os seres humanos são os únicos seres em que a existência vem antes da essência. Enquanto um objeto, como uma caneta, é fabricado com um propósito definido antes mesmo de existir, o ser humano primeiro aparece no mundo e só depois se define através de suas escolhas.
- Liberdade radical: Não há um manual de instruções ou um plano divino que determine quem você deve ser.
- Poder de autocriação: Se não há uma essência predeterminada, você tem a liberdade (e a responsabilidade) de construir sua própria identidade a cada dia.
- O "nada" como potencial: O "nada" é a nossa capacidade de dizer "não" ao que somos hoje para projetarmos o que queremos ser amanhã.
O desafio da responsabilidade e a armadilha da "má-fé"
- Essa liberdade total traz consigo o que Sartre chama de angústia. Saber que somos os únicos responsáveis por nossas vidas pode ser assustador. É por isso que, muitas vezes, buscamos refúgio na "má-fé" — o ato de fingir que não temos escolha.
- Muitas vezes usamos justificativas como
"eu nasci assim", "é o meu signo" ou "é culpa da sociedade"para evitar a dor de decidir. Sartre nos convida a abandonar essas muletas intelectuais. Reconhecer que somos a origem do sentido que damos à nossa vida é o primeiro passo para uma existência autêntica e corajosa.
Limitações reais e a influência de Simone de Beauvoir
- Embora a liberdade seja radical, ela não ignora a realidade: Sartre reconheceu que somos "lançados" em contextos que não escolhemos: nossa família, classe social, corpo e época histórica.
- Sua parceira intelectual: Simone de Beauvoir, refinou essa ideia ao destacar que fatores sociais e opressões externas (como o machismo e a pobreza) podem limitar as possibilidades de ação de um indivíduo. A liberdade, portanto, não é mágica, mas sim a capacidade de decidir o que fazer com aquilo que fizeram de nós.
Como aplicar o existencialismo no seu cotidiano
A filosofia sartreana pode ser um guia prático para começar o ano com mais autonomia:
- Assuma o protagonismo: Pare de buscar validação em destinos traçados por outros e defina seus próprios critérios de sucesso.
- Transforme obstáculos em significados: Você não pode controlar tudo o que acontece, mas é totalmente livre para decidir que importância dará a cada evento.
- Aja com autenticidade: Em vez de seguir tradições por hábito, pergunte-se se elas ainda fazem sentido para a pessoa que você deseja se tornar.
Abraçar o "nada" é aceitar que a vida não tem um sentido intrínseco, o que nos dá a permissão magnífica de inventar o nosso próprio sentido. No contexto de um novo ciclo, a filosofia de Sartre nos encoraja a encarar o futuro não com a ansiedade de quem precisa acertar um alvo predefinido, mas com a alegria de quem tem o controle criativo sobre a própria jornada. O futuro da sua vida está, literalmente, em suas mãos.
