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terça-feira, 21 de abril de 2026 às 10:31 GMT+0

“Minha filha foi mutilada”: A realidade oculta da mutilação genital feminina na Colômbia

Imagem: BBC

A mutilação genital feminina (MGF) na Colômbia é uma prática silenciosa e profundamente enraizada em algumas comunidades indígenas, especialmente entre o povo emberá. O relato de Carla Quiñonez revela não apenas o impacto físico e emocional dessa violência, mas também como ela se perpetua por gerações, muitas vezes sem o conhecimento ou consentimento das mães. Apesar de avanços recentes, o desafio de erradicar essa prática envolve fatores culturais, sociais e institucionais complexos.

O que é a mutilação genital feminina e seus impactos

A MGF consiste na remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos sem justificativa médica. Pode assumir diferentes formas, desde a retirada do clitóris até o estreitamento da abertura vaginal.

As consequências são graves e duradouras:

  • Dor intensa, hemorragias e risco de morte
  • Infecções frequentes e problemas urinários
  • Complicações menstruais e no parto
  • Impactos psicológicos e dificuldade na vivência da sexualidade

Especialistas consideram a prática uma forma de violência de gênero e violação de direitos humanos.

A realidade na Colômbia

A Colômbia é o único país da América Latina onde a MGF ainda é registrada oficialmente. Os casos se concentram em regiões isoladas, com difícil acesso a serviços de saúde e educação.

Dados recentes mostram:

  • 91 casos em 2023
  • 54 casos em 2024
  • 26 casos até outubro de 2025

No entanto, há consenso de que os números reais são maiores, já que muitos casos não chegam ao sistema de saúde.

Cultura, desinformação e pressão social

Dentro de algumas comunidades emberá, a prática é chamada de “cura” e justificada por crenças como:

1. Medo de que o clitóris se transforme em um órgão masculino
2. Ideias de controle da sexualidade feminina
3. Pressões sociais e patriarcais sobre o comportamento das mulheres

Apesar disso, lideranças indígenas e ativistas argumentam que a MGF não faz parte da cultura ancestral, mas sim de desinformação, machismo e influências históricas externas.

O ciclo de silêncio e suas consequências

A prática é mantida por um ciclo difícil de romper:

  • Muitas mães não sabem que suas filhas foram mutiladas
  • O tema é tratado como tabu dentro das comunidades
  • Há medo, vergonha e normalização da violência

Esse silêncio pode levar a tragédias, incluindo mortes de recém-nascidas, muitas vezes atribuídas a causas desconhecidas ou crenças espirituais.

A atuação de profissionais e ativistas

Médicos e ativistas desempenham papel fundamental na denúncia e conscientização:

  • Profissionais de saúde identificam casos ocultos e tratam complicações
  • Mulheres como Carla Quiñonez enfrentam ameaças ao denunciar a prática
  • Líderes indígenas promovem diálogo interno e educação

Esses esforços têm ajudado a ampliar o debate e dar visibilidade ao problema.

Desafios institucionais e proposta de lei

A resposta do Estado colombiano tem evoluído lentamente:

  • O tema ganhou visibilidade nacional apenas em 2007
  • Em 2025, foi aprovado um projeto de lei para prevenir e erradicar a prática
  • A proposta ainda depende de aprovação final para se tornar lei

Um dos principais debates é se a abordagem deve ser punitiva ou educativa. Muitos especialistas defendem que a educação é mais eficaz para evitar mortes e incentivar a busca por atendimento médico.

Discriminação e barreiras no atendimento

Além da violência inicial, vítimas enfrentam novos obstáculos:

  • Falta de preparo de profissionais de saúde
  • Racismo e estigmatização em centros urbanos
  • Dificuldade de comunicação por barreiras linguísticas

Esses fatores afastam muitas mulheres dos serviços médicos, agravando ainda mais os riscos à saúde.

Mudanças em curso e resistência feminina

Apesar das dificuldades, há sinais de transformação:

  • Mais mulheres estão questionando a prática
  • Algumas avós e parteiras começam a refletir sobre suas ações
  • O diálogo dentro das comunidades, embora difícil, está crescendo

A conscientização coletiva surge como um dos caminhos mais promissores para romper o ciclo.

Silêncio quebrado: O começo do fim da MGF

A mutilação genital feminina na Colômbia é um problema complexo, sustentado por tradição, desinformação e desigualdade social. No entanto, o avanço de iniciativas lideradas por mulheres, profissionais de saúde e representantes políticos mostra que a mudança é possível. Erradicar essa prática exige não apenas leis, mas também educação, respeito cultural aliado aos direitos humanos e, principalmente, coragem para quebrar o silêncio que a mantém viva por gerações.

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