“Minha filha foi mutilada”: A realidade oculta da mutilação genital feminina na Colômbia
Imagem: BBC
A mutilação genital feminina (MGF) na Colômbia é uma prática silenciosa e profundamente enraizada em algumas comunidades indígenas, especialmente entre o povo emberá. O relato de Carla Quiñonez revela não apenas o impacto físico e emocional dessa violência, mas também como ela se perpetua por gerações, muitas vezes sem o conhecimento ou consentimento das mães. Apesar de avanços recentes, o desafio de erradicar essa prática envolve fatores culturais, sociais e institucionais complexos.
O que é a mutilação genital feminina e seus impactos
A MGF consiste na remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos sem justificativa médica. Pode assumir diferentes formas, desde a retirada do clitóris até o estreitamento da abertura vaginal.
As consequências são graves e duradouras:
- Dor intensa, hemorragias e risco de morte
- Infecções frequentes e problemas urinários
- Complicações menstruais e no parto
- Impactos psicológicos e dificuldade na vivência da sexualidade
Especialistas consideram a prática uma forma de violência de gênero e violação de direitos humanos.
A realidade na Colômbia
A Colômbia é o único país da América Latina onde a MGF ainda é registrada oficialmente. Os casos se concentram em regiões isoladas, com difícil acesso a serviços de saúde e educação.
Dados recentes mostram:
- 91 casos em 2023
- 54 casos em 2024
- 26 casos até outubro de 2025
No entanto, há consenso de que os números reais são maiores, já que muitos casos não chegam ao sistema de saúde.
Cultura, desinformação e pressão social
Dentro de algumas comunidades emberá, a prática é chamada de “cura” e justificada por crenças como:
1. Medo de que o clitóris se transforme em um órgão masculino
2. Ideias de controle da sexualidade feminina
3. Pressões sociais e patriarcais sobre o comportamento das mulheres
Apesar disso, lideranças indígenas e ativistas argumentam que a MGF não faz parte da cultura ancestral, mas sim de desinformação, machismo e influências históricas externas.
O ciclo de silêncio e suas consequências
A prática é mantida por um ciclo difícil de romper:
- Muitas mães não sabem que suas filhas foram mutiladas
- O tema é tratado como tabu dentro das comunidades
- Há medo, vergonha e normalização da violência
Esse silêncio pode levar a tragédias, incluindo mortes de recém-nascidas, muitas vezes atribuídas a causas desconhecidas ou crenças espirituais.
A atuação de profissionais e ativistas
Médicos e ativistas desempenham papel fundamental na denúncia e conscientização:
- Profissionais de saúde identificam casos ocultos e tratam complicações
- Mulheres como Carla Quiñonez enfrentam ameaças ao denunciar a prática
- Líderes indígenas promovem diálogo interno e educação
Esses esforços têm ajudado a ampliar o debate e dar visibilidade ao problema.
Desafios institucionais e proposta de lei
A resposta do Estado colombiano tem evoluído lentamente:
- O tema ganhou visibilidade nacional apenas em 2007
- Em 2025, foi aprovado um projeto de lei para prevenir e erradicar a prática
- A proposta ainda depende de aprovação final para se tornar lei
Um dos principais debates é se a abordagem deve ser punitiva ou educativa. Muitos especialistas defendem que a educação é mais eficaz para evitar mortes e incentivar a busca por atendimento médico.
Discriminação e barreiras no atendimento
Além da violência inicial, vítimas enfrentam novos obstáculos:
- Falta de preparo de profissionais de saúde
- Racismo e estigmatização em centros urbanos
- Dificuldade de comunicação por barreiras linguísticas
Esses fatores afastam muitas mulheres dos serviços médicos, agravando ainda mais os riscos à saúde.
Mudanças em curso e resistência feminina
Apesar das dificuldades, há sinais de transformação:
- Mais mulheres estão questionando a prática
- Algumas avós e parteiras começam a refletir sobre suas ações
- O diálogo dentro das comunidades, embora difícil, está crescendo
A conscientização coletiva surge como um dos caminhos mais promissores para romper o ciclo.
Silêncio quebrado: O começo do fim da MGF
A mutilação genital feminina na Colômbia é um problema complexo, sustentado por tradição, desinformação e desigualdade social. No entanto, o avanço de iniciativas lideradas por mulheres, profissionais de saúde e representantes políticos mostra que a mudança é possível. Erradicar essa prática exige não apenas leis, mas também educação, respeito cultural aliado aos direitos humanos e, principalmente, coragem para quebrar o silêncio que a mantém viva por gerações.
