A "bazuca comercial" da Europa: Como a França pretende travar os planos de Trump na Groenlândia
O cenário geopolítico entre os Estados Unidos e a União Europeia atingiu um novo patamar de tensão em janeiro de 2026. O centro da disputa é a Groenlândia, território que o presidente Donald Trump insiste em anexar, gerando uma crise diplomática que pode desencadear uma guerra comercial sem precedentes.
Diante das ameaças de sobretaxas contra nações europeias, a França, sob a liderança de Emmanuel Macron, propôs o uso do Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI). Esta ferramenta, apelidada de bazuca comercial, é a defesa mais potente do bloco europeu para proteger sua soberania econômica.
A origem do conflito: A disputa pelo Ártico
- O estopim para a crise atual foi o envio de uma missão militar conjunta de oito países europeus à Groenlândia para reforçar a segurança da ilha. Donald Trump reagiu alegando que a Dinamarca não tem capacidade de proteger o território contra interesses da China e que o controle americano seria a única solução.
- Como retaliação, o governo americano anunciou tarifas de
10%com previsão de subirem para25%em junho sobre produtos de países como Dinamarca, França, Alemanha e Holanda. A condição para a retirada das taxas é explícita: a concordância europeia com a venda da ilha.
O que é a bazuca comercial (ACI)
Aprovado em 2023, o Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI) foi criado justamente para momentos como este. Ele permite que a União Europeia responda de forma coordenada quando um país estrangeiro tenta pressionar o bloco ou um de seus membros a tomar decisões específicas através de punições econômicas.
Diferente de disputas tradicionais na Organização Mundial do Comércio (OMC), que podem levar anos, o ACI permite uma reação rápida e autônoma. Seus principais poderes incluem:
- Aumento de tarifas: Sobretaxar produtos importados do país agressor.
- Bloqueio de investimentos: Impedir que empresas desse país comprem ações de empresas europeias ou participem de licitações públicas.
- Restrições de serviços: Limitar a atuação de empresas estrangeiras no mercado interno europeu.
- Reparações financeiras: Exigir compensações diretas pelos danos causados pela coerção.
O precedente lituano e a influência da China
- Embora o foco atual seja Washington, a inspiração para o ACI veio de Pequim. Em 2021, a China impôs um bloqueio comercial à Lituânia após o país báltico fortalecer laços com Taiwan. Na época, a Europa percebeu que não possuía ferramentas legais para proteger um Estado-membro contra esse tipo de "bullying econômico". A criação da bazuca foi a resposta estratégica para garantir que nenhum país pudesse chantagear a soberania europeia.
Diplomacia versus Retaliação
- Apesar do entusiasmo francês em utilizar o ACI, o bloco europeu não é unânime. Enquanto Macron adota um tom de "defesa da soberania", outros líderes, como o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, e o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, pregam cautela.
- O argumento dos moderados é o volume comercial em jogo: em 2023, a troca de bens e serviços entre as duas potências ultrapassou
1,8 trilhão de dólares. Uma guerra comercial generalizada poderia desestabilizar a economia global, elevando a inflação e prejudicando cadeias de suprimentos já fragilizadas.
A ativação da bazuca comercial representa um divisor de águas na política externa da União Europeia. O uso do ACI sinaliza que o bloco está disposto a abandonar a passividade diplomática em favor de uma postura defensiva robusta. Se as ameaças de Trump se concretizarem em fevereiro, o mundo poderá presenciar o maior confronto comercial da história moderna, testando não apenas a economia, mas a resiliência das alianças ocidentais.
