Dólar desaba em 2026: O que está por trás da maior queda em 4 anos?
Após um 2025 marcado por turbulências e a implementação de tarifas de importação agressivas pelo governo de Donald Trump, o mercado financeiro esperava que 2026 trouxesse um período de estabilidade. No entanto, o primeiro mês do ano desafiou as previsões. O dólar americano registrou sua maior queda em quatro anos frente a uma cesta de moedas globais, recuando 3% em apenas uma semana contra o euro e a libra esterlina.
A "tempestade perfeita" da instabilidade política
Analistas de mercado apontam que a desvalorização atual não é apenas técnica, mas um reflexo da incerteza política. A natureza imprevisível das decisões da Casa Branca, oscilando entre escaladas e recuos diplomáticos, tem afugentado investidores.
- O fator Groenlândia: O aumento das tensões entre os Estados Unidos e a Europa em relação à Groenlândia funcionou como um gatilho para a volatilidade recente, desencorajando o fluxo de capital estrangeiro para ativos americanos.
- Políticas tarifárias: O impacto do "Dia da Libertação" (abril de 2025), quando novas tarifas foram anunciadas, ainda ecoa no mercado, gerando uma percepção de que o protecionismo excessivo pode prejudicar a economia dos EUA a longo prazo.
O "Efeito Warsh" e o futuro do Federal Reserve
- Um dos pontos de maior atenção nesta semana foi a indicação de Kevin Warsh para assumir a presidência do Federal Reserve (Fed), substituindo Jerome Powell. A escolha, celebrada por Donald Trump como a de um líder "perfeito para o papel", sinaliza uma mudança profunda na política monetária.
- A expectativa é que Warsh adote uma postura mais flexível, cedendo à pressão por cortes rápidos nas taxas de juros. No mercado de câmbio, juros mais baixos geralmente significam um dólar mais fraco, já que investidores buscam retornos mais atraentes em outros países. Se confirmada pelo Senado, a liderança de Warsh pode consolidar a tendência de queda da moeda para o restante do ano.
Oportunidades e desafios para o Brasil e América Latina
O enfraquecimento global do dólar tem gerado um efeito cascata nas economias emergentes, especialmente no Brasil, que iniciou 2026 com um cenário de recordes e ajustes estratégicos:
- Rali na Bolsa brasileira: O Ibovespa atingiu patamares históricos em janeiro de 2026, superando a marca dos 185 mil pontos. Esse movimento é impulsionado pela entrada massiva de capital estrangeiro, que deixa o mercado americano em busca de maior rentabilidade em ativos brasileiros, especialmente em empresas de commodities como Vale e Petrobras.
- Exportações e commodities: Um dólar globalmente fraco tende a elevar os preços das commodities (como soja e minério de ferro) nas bolsas internacionais. Para o exportador brasileiro, isso compensa parcialmente a queda na cotação da moeda americana em relação ao real (que operou abaixo de R$ 5,20 em janeiro), mantendo a balança comercial em superávit recorde.
- Redução de custos de produção: No agronegócio, a valorização do real ajuda a reduzir os custos de insumos importados, como fertilizantes e defensivos agrícolas. Isso alivia as margens dos produtores, que sofreram com a alta volatilidade de 2025.
- Integração regional: Países como México e Canadá, pressionados pelas políticas comerciais de Trump, estão estreitando laços com o Mercosul. O Brasil se posiciona como um porto seguro para investimentos na América Latina diante das incertezas do USMCA.
Para onde está indo o capital global?
Com o dólar sob pressão, o capital está buscando novos refúgios. A saída de investidores dos títulos do Tesouro americano já provoca efeitos visíveis em outros ativos:
1. A corrida pelo ouro: O preço do metal precioso dobrou no último ano, reafirmando sua posição como o refúgio preferido em tempos de incerteza geopolítica.
2. Fortalecimento de rivais: Euro e libra ganharam terreno significativo. Além disso, moedas de 11 mercados emergentes apresentaram valorização superior a 1% em janeiro, conforme monitoramento da Oxford Economics.
3. Desinvestimento institucional: Fundos de pensão de grande porte, como os da Holanda e Dinamarca, começaram a reduzir suas posições em bônus americanos.
O dilema: Exportações competitivas vs. Inflação interna
- Curiosamente, um dólar mais fraco não é visto necessariamente como uma derrota pela Casa Branca: O governo tem reiterado que uma moeda menos valorizada torna os produtos americanos mais baratos no exterior, ajudando a equilibrar a balança comercial.
- No entanto, essa estratégia é uma faca de dois gumes: O enfraquecimento do dólar reduz o poder de compra dos americanos e encarece produtos importados, o que pode alimentar a inflação interna. O desafio de 2026 será encontrar o equilíbrio entre estimular a indústria nacional e evitar que o custo de vida saia de controle.
O cenário para o dólar em 2026 permanece nebuloso. Enquanto instituições como o grupo ING preveem uma queda adicional de até 5% ao longo do ano, a economia americana ainda demonstra força em setores específicos. Para o Brasil e a América Latina, o momento é de otimismo cauteloso: a entrada de capital estrangeiro e o recorde nas bolsas sugerem um ano de crescimento, desde que a estabilidade fiscal interna seja mantida diante do ruído das eleições que se aproximam.
