Econômia 2026: O impacto das "bets" no consumo e a queda nas vendas nos supermercados - Perfil do consumidor
Tradicionalmente, o mês de dezembro é o "porto seguro" dos supermercados. A combinação das festas natalinas com a entrada do 13.º salário costuma garantir prateleiras vazias e caixas cheios. No entanto, o fechamento de 2025 trouxe uma surpresa amarga: foi o pior mês do ano para o varejo de alimentos.
Embora a inflação de alimentos tenha dado trégua a partir do segundo semestre de 2025, ajudando o índice geral a fechar o ano abaixo do teto de 4,5%, o volume de vendas caiu 5,5% em comparação ao mesmo período de 2024. O faturamento também recuou 2,5%, marcando o único mês de 2025 com saldo negativo em receita para o setor.
Por que o consumo caiu se os preços estabilizaram?
Abaixo, detalhamos os fatores que explicam esse comportamento cauteloso do consumidor brasileiro e como o mercado está reagindo.
1. O avanço das apostas online e o endividamento
- Um fator novo e preocupante entrou na conta das famílias: o crescimento exponencial das apostas online, as chamadas "bets". Segundo dados do Banco Central, essas plataformas movimentam bilhões mensalmente, competindo diretamente com o orçamento que antes era destinado ao consumo básico. O endividamento gerado por esse hábito tem restringido o poder de compra no supermercado.
2. Bens vs. Serviços: A mudança de prioridades
- Há um movimento estrutural no Brasil: o gasto com serviços (viagens, lazer, alimentação fora de casa) está ocupando um espaço cada vez maior no orçamento. Atualmente, os serviços respondem por quase metade das despesas das famílias, enquanto a fatia destinada à compra de bens (como mantimentos) vem encolhendo gradualmente desde 2008.
3. Falta de confiança e juros altos
Mesmo com a economia estável, a percepção psicológica de que "o dinheiro não rende" ainda domina o consumidor. Os juros elevados encarecem o crédito e aumentam a insegurança em relação ao futuro, levando as pessoas a:
- Reduzir o volume das compras.
- Priorizar itens essenciais.
- Migrar para marcas mais baratas ou buscar promoções agressivas.
4. O "combo" de Janeiro e a queima de estoques
- A frustração das vendas em dezembro deixou os supermercados com estoques altos em um momento crítico. Janeiro é o mês em que o consumidor enfrenta despesas sazonais pesadas, como IPVA, IPTU e material escolar. Para girar o capital e quitar despesas, redes de supermercados estão lançando promoções com descontos que chegam a 50% em itens fundamentais, como carnes, café e bebidas.
Um cenário de adaptação necessária
- O desempenho do varejo no final de 2025 acende um alerta para o setor supermercadista. A "trégua" da inflação, por si só, não foi suficiente para garantir o crescimento, evidenciando que fatores como o endividamento familiar e a mudança nos hábitos de lazer pesam tanto quanto os preços na etiqueta.
Para 2026, o desafio dos supermercados será reconquistar o cliente que está cada vez mais seletivo e estrategista, equilibrando a gestão de estoques com ofertas que realmente aliviem o bolso de quem já começa o ano sobrecarregado de impostos e dívidas.
