Tata Tancredo: A história desconhecida do "Papa Negro" de como um ritual de Umbanda deu origem ao Réveillon do Rio de Janeiro.
O Réveillon de Copacabana é, hoje, um dos maiores espetáculos do planeta, reunindo milhões de pessoas vestidas de branco em uma coreografia de fé e celebração. No entanto, poucos que brindam na areia sabem que essa tradição não nasceu de um comitê de turismo, mas da audácia de um líder religioso negro: Tancredo da Silva Pinto. Conhecido como o "Papa Negro da Umbanda", ele não apenas moldou a identidade visual da virada de ano no Rio de Janeiro, mas utilizou a ocupação do espaço público como uma ferramenta poderosa de resistência política e cultural.
O arquiteto do branco: A "invenção" do Réveillon em Copacabana
A imagem clássica da multidão saudando Iemanjá com flores e barquinhos na virada do ano teve um ponto de partida exato. Na passagem de 1949 para 1950, Tata Tancredo organizou o evento Flores de Iemanjá. Naquela época, Copacabana já era um bairro de elite, e a presença de grupos de matriz africana batendo tambores e entregando oferendas era vista com forte preconceito.
- De ritual a fenômeno: O que começou com um pequeno grupo de praticantes cresceu exponencialmente. Nos anos 1960, o evento já atraía cerca de 400 mil pessoas.
- A conquista da elite: Curiosamente, os moradores locais, inicialmente hostis, passaram a descer para a areia para tomar passes, pular as sete ondas e adotar o traje branco, descaracterizando o evento como "estritamente religioso" e tornando-o uma festa plural.
- Sentido político: Para Tancredo, levar a Umbanda para a vitrine do Rio era uma tática para combater a marginalização e exigir liberdade religiosa em um país que, até poucas décadas antes, criminalizava tais práticas.
Tata Tancredo: A liderança do "Papa Negro"
Nascido em Cantagalo (RJ) em 1904, Tancredo da Silva Pinto foi mais do que um guia espiritual; foi um articulador institucional. Ele recebeu o título de "Papa Negro" por sua defesa intransigente das raízes africanas da Umbanda, combatendo o processo de "embranquecimento" que a religião sofria em meados do século 20.
- Umbanda Omolocô: Ele foi o principal expoente da vertente Omolocô, que buscava preservar o uso de tambores, indumentárias tradicionais e o idioma africano nos rituais, reconectando a religião às suas origens na região centro-ocidental da África.
- Diplomacia e direito: Em 1956, Tancredo chegou a levar denúncias de intolerância religiosa no Brasil à Organização das Nações Unidas (ONU), buscando visibilidade internacional para a repressão sofrida pelos terreiros.
- Escritor e intelectual: Foi autor de obras fundamentais como "Origens da Umbanda" (1970), consolidando a teologia e a história das práticas afro-brasileiras.
Fé, samba e a identidade do Estácio
A vida de Tancredo não se dividia entre o sagrado e o profano; para ele, ambos eram expressões da mesma cultura negra. Morador do Morro de São Carlos, ele foi peça-chave na fundação do samba moderno.
- Bambas do Estácio: Tancredo conviveu com figuras como Ismael Silva e participou da criação da Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba do Brasil.
- General da banda: Ele foi um dos compositores do mega-sucesso carnavalesco "General da Banda", de 1950. O curioso é que parte dos direitos autorais dessa música foi utilizada para fundar a Confederação Espírita Umbandista do Brasil.
- Organização de classe: Ele ajudou a fundar a União das Escolas de Samba e a Federação Brasileira das Escolas de Samba, entendendo que a organização coletiva era a única forma de proteger o povo negro da repressão policial.
O legado em 2026: Entre estátuas e a avenida
A relevância de Tata Tancredo permanece viva e gera debates intensos sobre a ocupação religiosa dos espaços públicos no Rio de Janeiro. Recentemente, a inclusão de palcos voltados exclusivamente ao público evangélico no Réveillon gerou críticas de lideranças de matriz africana, que reivindicam a precedência histórica de Tancredo na criação da festa.
- Homenagem no Carnaval: Em 2026, a escola de samba Estácio de Sá leva para a Avenida o enredo "Tata Tancredo — O Papa Negro no Terreiro do Estácio", celebrando sua vida como compositor, religioso e líder político.
- Reconhecimento público: Após as tensões recentes, a Prefeitura do Rio de Janeiro prometeu a instalação de uma estátua em homenagem a Tancredo, um gesto que tenta reparar o apagamento histórico de quem primeiro vestiu Copacabana de branco.
Tancredo da Silva Pinto foi o mestre de uma "macumba" que se tornou o maior evento a céu aberto do mundo. Ele entendeu, antes de todos, que a presença física e o brilho estético eram formas legítimas de lutar por direitos. Ao transformar o medo em curiosidade e o preconceito em tradição, o Papa Negro garantiu que a voz do terreiro ecoasse muito além das fronteiras da favela, fundindo-se para sempre com o horizonte de Copacabana.
