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segunda-feira, 25 de agosto de 2025 às 11:05 GMT+0

Bnei Anussim: O despertar judaico no Nordeste do Brasil - Quem são os milhares de brasileiros retornando ao judaísmo no sertão?

Em Messejana, um bairro na periferia de Fortaleza, uma sinagoga com estrelas de Davi na fachada se destaca entre as casas simples. Esta é a sinagoga Beitel, um símbolo de um movimento religioso e cultural extraordinário que está redefinindo a paisagem espiritual do Brasil. O surgimento de comunidades como essa é a ponta do iceberg de um fenômeno massivo: o retorno de milhares de brasileiros, majoritariamente no Nordeste, às raízes judaicas que lhes foram tiradas há séculos. Este resumo explora a jornada desses "novos judeus", suas motivações, impactos e os desafios que enfrentam.

Quem são os "Bnei Anussim"? Uma jornada de volta para casa

A expressão "bnei anussim" significa, em hebraico, "filhos dos forçados". Ela se refere aos descendentes de judeus sefarditas (originários da Península Ibérica) que foram forçados a se converter ao cristianismo durante a Inquisição, a partir do século XV. No Brasil, esses convertidos à força eram chamados de "cristãos-novos".

  • A redescoberta da identidade: Muitos bnei anussim redescobrem suas origens através de pesquisas genealógicas, histórias familiares transmitidas oralmente e, mais recentemente, testes de DNA. Eles não veem sua conversão como a adoção de uma nova fé, mas como um retorno à fé de seus antepassados, uma forma de reparação histórica.
  • O novo perfil: Diferente dos "marranos" das gerações anteriores, a nova onda de bnei anussim é em grande parte composta por ex-evangélicos. Eles foram atraídos por igrejas que davam ênfase ao Antigo Testamento e, em alguns casos, pelo judaísmo messiânico, antes de buscarem o judaísmo ortodoxo.

A relevância e o impacto de um movimento histórico

Este não é um fenômeno isolado, mas um movimento de grande escala com implicações demográficas, religiosas e geopolíticas.

  • Impacto demográfico: Um instituto israelense estima que aproximadamente 30 mil brasileiros já completaram o processo de conversão, e que até 4 milhões de brasileiros com ancestralidade judaica potencialmente se enquadram na categoria bnei anussim. O escritor Jacques Ribemboim sugere que o número de nordestinos com essa herança pode chegar a "dezenas de milhões", superando a população de Israel.
  • O renascimento cultural e religioso: O movimento está revitalizando e diversificando o judaísmo brasileiro. Novas sinagogas surgem em locais onde não havia presença judaica, como Tibau (RN) e Campina Grande (PB). Eles incorporam elementos regionais, como cantar rezas em hebraico com a melodia de "Asa Branca", e adotam vestimentas sefarditas, mais adequadas ao clima tropical.
  • Conexão com Israel: Muitos bnei anussim convertidos fazem a aliá (imigração para Israel) e obtêm a cidadania. A reportagem mencionou casos de jovens que se alistaram e serviram no Exército israelense, o que coloca Israel diante de uma oportunidade demográfica, mas também de um desafio logístico e religioso.

Desafios e resistências: Entre o ceticismo e a burocracia

Apesar do fervor, o caminho dos bnei anussim é marcado por obstáculos significativos.

  • Preconceito interno: Algumas comunidades judaicas tradicionais no Brasil encaram o movimento com ceticismo. Líderes bnei anussim relatam serem barrados na porta de sinagogas e terem suas conversões questionadas. Os argumentos vão desde a preocupação com segurança até a acusação de que as conversões teriam "segundas intenções", como acesso a benefícios comunitários.
  • A barreira da conversão: Encontrar rabinos no Brasil dispostos a conduzir conversões ortodoxas é extremamente difícil. Muitas comunidades dependem de rabinos estrangeiros, como o israelense Chaim Amsalem, que afirma ter convertido milhares de brasileiros. No entanto, o Rabinato-Chefe de Israel não reconhece essas conversões, criando um enorme obstáculo burocrático para quem deseja imigrar.
  • Uma questão de visão política: Embora muitos bnei anussim apoiem incondicionalmente Israel, outros, como o historiador Aldrey Ribeiro, defendem a criação de um Estado palestino. Eles veem sua herança como um exemplo de convivência pacífica entre diferentes religiões, inspirada na "era de ouro" da Península Ibérica.

As raízes da história: Da inquisição ao sertão

Para entender o fenômeno, é crucial voltar aos séculos XV e XVI.

Perseguição e migração: Após serem expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497, muitos judeus se converteram para permanecer e foram perseguidos pela Inquisição. Várias dessas famílias migraram para o Brasil colônia, em busca de refúgio.

  • Sobrevivência no sertão: Durante o domínio holandês em Pernambuco, no século XVII, eles puderam praticar sua fé abertamente, mas a expulsão dos holandeses os forçou a fugir para o sertão, onde vestígios de práticas judaicas podem ter sobrevivido de forma oculta por gerações.

Resiliência, reparação e um futuro em construção

O retorno dos bnei anussim ao judaísmo é um dos fenômenos religiosos e identitários mais fascinantes do Brasil contemporâneo. É uma história de resiliência, de busca por pertencimento e de reparação de uma injustiça histórica de mais de cinco séculos. Este movimento não apenas desafia noções pré-concebidas sobre a identidade judaica, mas também pressiona as estruturas religiosas e políticas do judaísmo global e de Israel a se adaptarem.

Com um potencial de milhões de pessoas redescobrindo suas raízes, os bnei anussim do Nordeste estão, sem dúvida, reescrevendo a história do judaísmo no Brasil e no mundo.

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