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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025 às 12:37 GMT+0

"Ainda Estou Aqui": Uma análise crítica do filme que está no centro da polêmica sobre a ditadura - Há espaço para divergências?

Desde sua estreia no Festival de Veneza em 2024, onde recebeu 10 minutos de aplausos, até suas indicações ao Oscar de 2025, o filme brasileiro Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, conquistou um enorme sucesso de crítica e público. No Rotten Tomatoes, plataforma que agrega avaliações especializadas, o filme atingiu 97% de aprovação tanto da crítica quanto do público, tornando-se um fenômeno de popularidade.

Contudo, apesar do grande reconhecimento, algumas críticas ao filme foram recebidas com hostilidade nas redes sociais, levantando um debate sobre a liberdade de expressão e a dificuldade em aceitar opiniões divergentes sobre uma obra amplamente aclamada.

O que é 'Ainda Estou Aqui'?

  • O filme narra a trajetória de Eunice Paiva, mãe de cinco filhos, após o sequestro e assassinato de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar brasileira. A história se concentra na luta da protagonista para superar a perda e seguir em frente, destacando o impacto pessoal e familiar da repressão política.

  • Com indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz (Fernanda Torres), a produção se tornou um dos filmes brasileiros mais reconhecidos internacionalmente nos últimos anos.

Críticas positivas: Por que o filme foi tão elogiado?

A aclamação ao filme se baseia em diversos fatores:

  • Direção sensível e envolvente: Walter Salles é reconhecido por sua abordagem humanizada e delicada ao contar histórias.
  • Atuação de Fernanda Torres: A interpretação da protagonista foi amplamente elogiada, sendo considerada um dos pontos altos da obra.
  • Retrato intimista da ditadura: Em vez de focar diretamente nos aspectos políticos, o filme destaca as consequências emocionais da repressão militar.
  • Fotografia e trilha sonora marcantes: Elementos técnicos como a cinematografia e a música foram apontados como contribuições importantes para a imersão do público.

No entanto, nem todos compartilham dessa visão tão positiva. Algumas críticas levantam questionamentos sobre a abordagem adotada pelo filme e a forma como ele retrata a ditadura militar.

As críticas ao filme: Há espaço para debate?

Embora Ainda Estou Aqui tenha sido amplamente elogiado, algumas análises apontam limitações na forma como a ditadura é abordada. Os principais pontos de crítica incluem:

  • Enfoque restrito à classe média alta: O filme centra sua narrativa na dor de uma família privilegiada, sem abordar de forma ampla a repressão sofrida por trabalhadores, camponeses e outras classes sociais afetadas pelo regime.
  • Falta de profundidade na política: Apesar de tratar de um evento altamente político, o filme prioriza o aspecto pessoal e familiar, sem aprofundar a atuação política de Rubens Paiva.
  • Tom excessivamente conciliador: Algumas análises sugerem que Walter Salles tem um estilo de direção que evita confrontos mais duros, levando o filme a uma abordagem menos crítica e mais emocional.

A repercussão das críticas: Hostilidade nas redes sociais

  • A reação do público a críticas negativas foi intensa. O crítico francês Jacques Mandelbaum, do jornal Le Monde, escreveu uma resenha negativa do filme, o que gerou uma onda de ataques contra a publicação. Em apenas dois dias, o jornal recebeu mais de 21 mil comentários ofensivos, número muito superior à média diária de interações em suas redes sociais.

  • Outro caso de repercussão foi o do influenciador Thiago Torres, criador do canal Chavoso da USP no YouTube. Ele publicou um vídeo intitulado "Ainda Estou Aqui: Por que não gostei do filme?", que já acumula quase 100 mil visualizações e 2,5 mil comentários. No vídeo, Torres critica o foco restrito da narrativa e tenta relacionar o tema da ditadura à atual violência policial nas periferias.

  • No entanto, ao expressar sua opinião, o influenciador passou a ser atacado nas redes sociais, sendo chamado até de "inimigo do Brasil". Segundo ele, muitas das críticas partiram de pessoas que nem sequer assistiram ao seu vídeo antes de reagir negativamente.

Por que a polarização acontece?

  • Especialistas apontam que a reação negativa a críticas sobre o filme reflete a atual polarização política no Brasil. Como a obra aborda a ditadura militar, um tema historicamente controverso, qualquer crítica pode ser vista como um ataque político.

  • O jornalista e cinéfilo Saymon Nascimento defende que a arte deve permitir o debate e que críticas servem para ampliar horizontes, não para serem aceitas cegamente. Segundo ele, o filme poderia ter explorado de forma mais profunda as dimensões políticas do período, citando como exemplo produções como Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) e Eles Não Usam Black-Tie (1981), que conseguiram unir um forte viés político com grande apelo ao público.

  • Já a professora da Unesp Silvia Adoue destaca que a narrativa do filme segue um padrão dominante de representação da ditadura, focado na perseguição à classe média intelectual a partir de 1968, enquanto a repressão aos trabalhadores começou já em 1964. Para ela, essa abordagem limita a compreensão mais ampla do impacto do regime militar no Brasil.

É possível criticar 'Ainda Estou Aqui'?

  • O sucesso de Ainda Estou Aqui é inegável, tanto em termos de público quanto de reconhecimento internacional. No entanto, o debate sobre suas qualidades e limitações demonstra que nenhuma obra, por mais aclamada que seja, deve estar imune a críticas.

  • A reação exagerada contra opiniões divergentes levanta questões importantes sobre a forma como o público lida com narrativas históricas e políticas. O cinema, assim como qualquer outra forma de arte, deve ser um espaço aberto para diferentes interpretações, e não um campo de batalhas ideológicas onde apenas uma visão é aceita.

No fim, a questão não é se "Ainda Estou Aqui" é um grande filme ou não, mas sim se estamos dispostos a ouvir e respeitar perspectivas diferentes sobre ele.

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