Fernanda Montenegro aos 96 anos: "Olhar a morte de cima" - A lição de Cícero, projeto teatral que ajuda a entender a partida
Aos 96 anos, Fernanda Montenegro segue em plena atividade artística e intelectual. Em entrevista recente, ela reflete sobre carreira, política, cultura e, sobretudo, sobre o envelhecimento e a morte, temas centrais de seu novo projeto teatral inspirado no filósofo Cícero. Longe de qualquer tom de despedida, sua fala revela lucidez, presença e uma visão profunda sobre o tempo e a existência.
Uma artista em movimento, não em despedida
Mesmo aos 96 anos, Fernanda mantém uma agenda intensa:
- Lança o filme Velhos Bandidos, uma comédia com crítica social dirigida por seu filho.
- Prepara a série Emergência 53.
- Planeja uma turnê nacional com monólogos teatrais.
Ela rejeita a ideia de aposentadoria ou despedida, reforçando que seu compromisso é com o presente: “acordar e cantar”.
Velhice, morte e o pensamento de Cícero
O novo projeto teatral nasce de uma reflexão pessoal sobre o envelhecimento:
- Inspirada em Sobre a Velhice, de Cícero, Fernanda busca compreender a própria finitude.
- A frase
“olhar a morte de cima”resume uma postura de enfrentamento com coragem e lucidez. - Para ela, viver muito também significa lidar com perdas constantes, o que exige maturidade emocional.
Essa abordagem transforma o tema da morte em algo filosófico, e não apenas trágico.
Humor na velhice sem estereótipos
Em Velhos Bandidos, Fernanda aborda a comédia na terceira idade de forma crítica:
- O humor não é superficial nem baseado em caricaturas.
- Há uma dimensão social na história: personagens recorrem ao crime como última alternativa.
- O filme valoriza a complexidade e a dignidade dos idosos.
O teatro como essência da arte
Apesar de atuar no cinema e na TV, Fernanda reafirma sua ligação com o teatro:
- O palco proporciona uma “comunhão física” com o público.
- A experiência teatral é vista como insubstituível e profundamente humana.
- Mesmo com limitações físicas, ela deseja continuar enquanto for possível.
Reflexões sobre cultura e política no Brasil
A atriz também faz uma leitura crítica do país:
- Destaca a falta histórica de investimento em cultura, educação e saúde.
- Reconhece a força do cinema brasileiro, mesmo com poucos recursos.
- Alerta para riscos políticos, defendendo escolhas conscientes diante de cenários instáveis.
Oscar e reconhecimento internacional
Ao comentar sua histórica indicação ao Oscar, Fernanda relativiza a ideia de “derrota”:
- Ser indicada já representa um reconhecimento de elite no cinema mundial.
- Critica a visão brasileira de que só a vitória valida o trabalho artístico.
- Valoriza o crescimento do cinema nacional no cenário internacional.
Viver o presente como filosofia
Ao afirmar que “não tem mais futuro”, Fernanda não expressa pessimismo, mas consciência:
- Enfatiza a importância de viver intensamente o presente.
- Entende sua fase como a de uma “sobrevivente”, no melhor sentido.
- Sua filosofia é simples e poderosa:
viver cada dia como ele é.
Fernanda Montenegro reafirma sua posição como uma das maiores vozes da cultura brasileira não apenas por sua carreira, mas por sua lucidez diante da vida. Entre projetos, reflexões e palco, ela transforma a velhice em potência criativa e filosófica. Sua visão sobre a morte, longe de ser um fim, torna-se um convite à consciência — e à coragem de continuar vivendo com intensidade até o último ato.
