Apagão digital e caos econômico: Por que o Irã vive hoje sua pior crise em décadas? Intervenção internacional dos EUA
A República Islâmica do Irã enfrenta um de seus momentos mais críticos das últimas décadas. O que começou como um descontentamento econômico isolado transformou-se rapidamente em um levante nacional contra a estrutura teocrática do país. Em janeiro de 2026, multidões ocupam as ruas de Teerã e dezenas de outras cidades, desafiando a autoridade do Líder Supremo e exigindo mudanças sistêmicas profundas.
O estopim econômico e a crise da moeda
A atual onda de indignação foi desencadeada pelo colapso drástico do rial, a moeda iraniana. Com a inflação atingindo a marca de 40% e o valor do dinheiro derretendo frente ao dólar, a população viu seu poder de compra desaparecer. O cenário é agravado por:
- Sanções internacionais: A pressão sobre o programa nuclear iraniano continua estrangulando as finanças do país.
- Gestão e corrupção: Manifestantes apontam a má gestão governamental e a corrupção sistêmica como causas diretas da miséria da classe média e dos trabalhadores.
- Adesão de setores chave: O movimento começou com comerciantes e lojistas (o tradicional setor do bazar), mas rapidamente ganhou o apoio de estudantes universitários e trabalhadores urbanos.
Censura e o "apagão" digital
Para tentar conter a organização dos atos e impedir que imagens da repressão cheguem ao exterior, o governo iraniano implementou um bloqueio severo nas comunicações.
- Isolamento tecnológico: A organização NetBlocks confirmou um "apagão nacional" de internet, afetando o direito básico de comunicação da população.
- Censura de redes sociais: Medidas crescentes de restrição digital tentam silenciar as vozes que pedem a queda do regime.
- Narrativa estatal: Enquanto as ruas fervem, a mídia estatal tenta minimizar os eventos, exibindo vídeos de ruas vazias e descrevendo os manifestantes como "arruaceiros violentos" isolados.
O retorno da pauta monarquista
Um diferencial marcante destes protestos é a presença explícita de slogans em defesa de Reza Pahlavi, filho do ex-xá deposto em 1979.
- Gritos de ordem: Em cidades como Mashhad e Teerã, é possível ouvir pedidos pelo retorno de Pahlavi e críticas diretas ao aiatolá Ali Khamenei.
- Frente unida: Do exílio nos Estados Unidos, Pahlavi convocou os iranianos a manterem uma frente unida nas ruas para pressionar o atual governo.
Repressão e impacto humano
Os confrontos atingiram níveis alarmantes de violência, especialmente nas províncias de maioria étnica curda e lor, como Ilam e Kermanshah.
- Vítimas confirmadas: Diferentes organizações de direitos humanos, como a IHR e a HRANA, estimam que o número de mortos já ultrapassou 45 manifestantes, incluindo crianças.
- Detenções em massa: Mais de 2.200 pessoas foram presas em apenas doze dias de manifestações.
- Resistência civil: Em resposta à violência, grupos de oposição curdos convocaram greves gerais, paralisando o comércio em diversas regiões do oeste do país.
Reações políticas e geopolíticas
- O cenário interno iraniano é de divisão entre as autoridades: Enquanto o presidente Masoud Pezeshkian prega "máxima contenção", o Líder Supremo Ali Khamenei mantém uma linha dura contra o que chama de "arruaceiros".
- No plano internacional, a tensão escalou com declarações do presidente dos EUA, Donald Trump: O líder americano ameaçou intervenções militares diretas caso o regime iraniano intensifique a matança de manifestantes, elevando o risco de um conflito externo em meio à instabilidade doméstica.
O Irã atravessa um ponto de ruptura. A combinação de uma economia asfixiada, um apagão informativo e uma repressão violenta criou um ambiente de resistência que remete aos grandes levantes de 2009 e 2022. A rapidez com que o movimento se espalhou por mais de 100 cidades demonstra que a insatisfação não é mais pontual, mas um desafio existencial ao modelo de governança estabelecido pela Revolução Islâmica.
