Diplomacia de contenção: A queda de Maduro e o dilema do Brasil - Por que o governo Lula escolheu a cautela em vez do confronto?
O cenário internacional foi abalado em 3 de janeiro de 2026, quando forças dos Estados Unidos realizaram um bombardeio em território venezuelano e capturaram Nicolás Maduro. Para o Brasil, este evento não é apenas uma crise diplomática em um país vizinho, mas um desafio direto à sua política externa tradicional. O governo brasileiro encontra-se agora em uma encruzilhada: como condenar uma violação flagrante da soberania nacional sem atrair retaliações de uma Casa Branca cada vez mais assertiva, especialmente em um ano de eleições presidenciais em solo brasileiro?
A fragilidade do multilateralismo e o escudo das normas
- Historicamente, o Brasil utiliza o direito internacional e o princípio da não-intervenção como seus principais escudos. Como o país não possui o chamado "poder estrutural" (militar ou econômico global) para ditar regras, ele depende de normas e organizações internacionais para garantir sua segurança e a estabilidade regional.
- A condenação imediata feita pelo presidente Lula e as duras críticas do embaixador Sergio Danese no Conselho de Segurança da ONU seguem essa lógica. O Brasil entende que permitir a normalização de "operações de decapitação" de governos vizinhos abre um precedente perigoso. Entretanto, o esforço para liderar uma frente multilateral contra o governo Trump esbarra na erosão das instituições: a CELAC carece de força executiva e a OEA é vista como alinhada aos interesses de Washington.
Uma América Latina isolada geopoliticamente
Diferente de décadas passadas, o Brasil não encontra hoje um bloco regional coeso para oferecer uma resposta conjunta. Além disso, o cenário global mostra que o apoio externo é limitado:
- Europa: Tem mantido uma postura de cautela e silêncio diplomático.
- Rússia e China: Embora critiquem a ação americana, ambas as potências priorizam suas próprias esferas de influência e não parecem dispostas a sacrificar a relação com os EUA por Maduro.
Para essas potências, a saída de Maduro pode ser uma perda tática momentânea, mas o precedente de "esferas de influência" pode ser estrategicamente útil para suas próprias ações em outras regiões. Isso deixa o Brasil e seus vizinhos em uma posição de isolamento estratégico.
O fator doméstico: Eleições e opinião pública
- A política interna brasileira exerce uma pressão decisiva sobre o Itamaraty. Em um ano eleitoral (2026), qualquer movimento que possa ser interpretado como "apoio ao chavismo" é politicamente tóxico. Dados do Latinobarómetro reforçam que a imagem de Maduro é amplamente negativa entre os brasileiros e na região, tornando o custo político de defendê-lo proibitivo.
- Além disso, o governo Lula lida com um Congresso de maioria conservadora que monitora cada passo da diplomacia. O receio é que uma postura excessivamente hostil aos Estados Unidos possa provocar interferências externas no processo eleitoral brasileiro ou reverter as recentes vitórias comerciais, como o fim das tarifas sobre produtos nacionais impostas anteriormente por Trump.
A estratégia de Trump e o vácuo de poder na Venezuela
- Um ponto de incerteza é o futuro do comando venezuelano. Durante suas declarações recentes, Donald Trump ignorou figuras da oposição tradicional, como Edmundo González, e demonstrou ceticismo quanto à capacidade de María Corina Machado em controlar as forças de segurança.
- Isso sinaliza que a intervenção americana não visava uma transição democrática negociada, mas uma ruptura abrupta. Para o Brasil, o risco de uma desestabilização prolongada ou de uma guerra civil na fronteira norte é real e preocupante, o que justifica a cautela em não queimar pontes com nenhum dos lados.
A diplomacia da contenção de danos
- Diante da impossibilidade de uma resposta multilateral robusta, o Brasil parece inclinado a uma abordagem bilateral e pragmática. A existência de canais diplomáticos abertos com a Casa Branca desde o final de 2025 é o recurso mais valioso no momento.
O caminho a ser seguido não é o do confronto aberto, mas o da "diplomacia de bastidores". O Brasil deve continuar defendendo formalmente a soberania venezuelana nas tribunas internacionais, enquanto utiliza seus contatos diretos com Washington e Caracas para tentar influenciar os rumos da transição e mitigar os efeitos da crise. É uma postura reativa, mas necessária para navegar em um sistema internacional onde a força voltou a ser um instrumento central de poder.
