Estudo de Harvard revela o impacto real das condenações de Bolsonaro e Trump : O risco invisível de condenar líderes populares para a democracia
Esta é uma análise atualizada e organizada dos estudos realizados pela Universidade Harvard sobre os impactos jurídicos e sociais da condenação de lideranças políticas. O texto explora o fenômeno conhecido como "dilema da responsabilização" e as consequências para democracias polarizadas como o Brasil e os Estados Unidos.
O equilíbrio frágil entre justiça e estabilidade democrática
- No início de 2026, o Brasil se encontra em um momento de profunda reflexão institucional. Enquanto o Congresso Nacional avalia o veto presidencial ao Projeto de Lei da dosimetria que poderia reduzir penas de envolvidos nos atos de 8 de janeiro, um debate acadêmico de peso ganha tração: A condenação de líderes populares realmente fortalece a democracia ou pode, paradoxalmente, fragilizá-la?
- Pesquisadores do Departamento de Governo de Harvard debruçaram-se sobre essa questão, analisando as condenações de Jair Bolsonaro no Brasil e os processos contra Donald Trump nos Estados Unidos. O que os dados revelam é um cenário complexo, onde a busca por justiça enfrenta o risco do chamado "efeito rebote", um fenômeno que altera a percepção pública sobre a imparcialidade das cortes e o valor das normas democráticas.
O dilema da responsabilização: A escolha impossível das Cortes
O conceito central desenvolvido pelos cientistas políticos Andrew O'Donohue e Fernando Bizzarro é o accountability dilemma (dilema da responsabilização). Esse termo descreve o beco sem saída enfrentado pelo Judiciário ao lidar com líderes que ameaçam as instituições:
- O risco da impunidade: Deixar ataques ao sistema eleitoral sem resposta cria um precedente perigoso, sinalizando que a lei não se aplica a todos.
- O risco da punição: Condenar um líder com base popular sólida pode ser interpretado como uma perseguição política, corroendo a confiança dos eleitores no sistema judicial e incentivando ataques diretos contra os tribunais.
Em democracias altamente polarizadas, essa tensão é máxima. O estudo sugere que, embora a condenação seja um pilar do Estado de Direito, ela raramente resolve a divisão social e, em muitos casos, pode aprofundá-la.
O impacto das condenações na opinião pública brasileira
A pesquisa realizada com mais de 5,7 mil brasileiros no final de 2024 trouxe dados reveladores sobre as consequências das decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jair Bolsonaro:
- Erosão da confiança institucional: Embora as condenações tenham reduzido levemente o apoio eleitoral a Bolsonaro, o efeito colateral foi uma queda significativa na confiança nos tribunais entre seus apoiadores.
- Rejeição de normas democráticas: Entre o eleitorado mais fiel ao ex-presidente, o processo judicial gerou uma reação negativa contra princípios básicos, como a aceitação pacífica do resultado das urnas pelo candidato derrotado.
- O fator personalista: Diferente dos Estados Unidos, onde a lealdade partidária é forte, o Brasil apresenta uma política centrada em indivíduos. Quando a justiça atinge o líder, o eleitor sente que a punição é um ataque direto à sua identidade política, sem a mediação de um partido para absorver o impacto.
Dados de 2025 reforçaram essa percepção de desgaste. Em agosto daquele ano, pesquisas indicavam que mais de 50% da população desconfiava do Supremo, embora tenha ocorrido uma recuperação parcial nos índices de aprovação no fechamento do segundo semestre.
Comparativo internacional: O caso Donald Trump
O estudo de Harvard também traçou paralelos com o cenário norte-americano. Apesar de Donald Trump ter enfrentado múltiplas ações criminais e ter sido alvo de críticas severas, ele retornou à Casa Branca no início de 2026. As principais diferenças observadas foram:
- Resiliência partidária: Nos EUA, o sistema bipartidário permite que alguns eleitores condenem as ações do líder sem necessariamente abandonar o partido.
- Imunidade e decisões superiores: A decisão da Suprema Corte americana que garantiu imunidade criminal para atos oficiais mudou o curso dos processos de Trump, algo que não ocorreu da mesma forma no Judiciário brasileiro.
- Convergência de resultados: Em ambos os países, as ações judiciais tiveram um impacto modesto na intenção de voto, mas um impacto profundo e negativo na forma como os cidadãos enxergam a imparcialidade dos magistrados.
O futuro do judiciário e a concentração de poder
Um dos pontos de maior atenção para o futuro da democracia brasileira é a percepção de poder excessivo concentrado no STF. Os pesquisadores apontam que:
- Associação partidária: O grande desafio é evitar que o Judiciário seja visto como um braço político de um dos lados do espectro.
- Limites de atuação: Questiona-se até que ponto juízes devem ter influência sobre temas que não envolvem diretamente a salvaguarda da democracia, como questões tributárias ou de saúde pública, que tradicionalmente pertencem ao campo dos políticos eleitos.
- Incentivos para a moderação: No curto prazo, a inelegibilidade de Bolsonaro pode empurrar potenciais herdeiros políticos para discursos mais moderados, visando evitar o mesmo destino jurídico.
Escolhas difíceis e sem respostas simples
- A pesquisa de Harvard deixa claro que o fortalecimento de uma democracia não depende exclusivamente de sentenças judiciais. Embora a punição de atos ilícitos seja indispensável para manter o Estado de Direito, ela carrega o risco de isolar fatias importantes da população e gerar um sentimento de injustiça que alimenta novos movimentos autoritários.
Para os especialistas, o caminho para a estabilidade democrática exige mais do que julgamentos simbólicos; requer educação cívica, reformas institucionais profundas e um Judiciário que consiga manter sua autoridade sem ser percebido como um ator político no jogo eleitoral. O sucesso desse equilíbrio definirá o tom das eleições de 2026 e a saúde das instituições brasileiras nas próximas décadas.
