Lula no Carnaval 2026: Bolsonaro como Bozo e ataques a evangélicos - Os detalhes do desfile que dividiu o Sambódromo
O desfile da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Rio de Janeiro, realizado em 15 de fevereiro de 2026, transformou o Sambódromo em um verdadeiro tribunal a céu aberto. Ao escolher a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva como enredo, a escola não apenas celebrou a biografia do petista, mas mergulhou de cabeça na polarização política, utilizando sátiras ácidas que agora alimentam uma batalha jurídica no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A sátira política e o "Bozo" na prisão
- O desfile não economizou em simbolismos diretos contra a oposição. A comissão de frente e os carros alegóricos construíram uma narrativa onde o impeachment de Dilma Rousseff foi retratado como um "roubo" da faixa presidencial por Michel Temer.
- O ponto mais controverso foi a representação de Jair Bolsonaro. O ex-presidente foi interpretado por um ator fantasiado de palhaço Bozo, que apareceu em dois momentos distintos: recebendo a faixa de Temer e, posteriormente, atrás das grades, em uma alusão direta às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado. Essa abordagem gerou revolta imediata entre parlamentares da oposição, que veem no desfile uma tentativa de "assassinato de reputação" financiado indiretamente pelo Estado.
O embate com a fé: A ala dos neoconservadores
Um dos momentos de maior tensão envolveu a ala intitulada "Neoconservadores em conserva". A fantasia apresentava uma lata de conserva carregando críticas à "família tradicional" e ridicularizava grupos específicos:
- Representantes do agronegócio.
- Defensores da ditadura militar.
- Grupos religiosos evangélicos.
A senadora Damares Alves e o deputado Nikolas Ferreira reagiram duramente, classificando a apresentação como perseguição religiosa. Damares anunciou medidas judiciais, questionando o uso de verba pública para, segundo ela, ridicularizar a fé de milhões de brasileiros.
A linha tênue entre homenagem e propaganda eleitoral
Embora o TSE tenha permitido o desfile, os ministros deixaram um aviso claro: a escola está sob escrutínio. O debate jurídico gira em torno das "palavras mágicas" e símbolos que podem configurar propaganda antecipada para as eleições de 2026. Especialistas apontam que a escola pode ter cruzado a linha ao utilizar:
- O refrão
"Olê, olê, olê, olá", histórico jingle de campanha. - Referências ao número 13 e a slogans como
"o amor venceu o medo". - Citações a promessas atuais do governo, como a isenção do Imposto de Renda e a revisão da escala 6x1.
"Eu achei que aquilo era um comício eleitoral e não um desfile de escola de samba", afirmou o advogado eleitoral Alberto Rollo, destacando que a repetição exaustiva de motes de campanha retira o caráter puramente histórico do enredo.
O xadrez do financiamento público
- A questão financeira é o combustível da contestação do partido Novo. A Acadêmicos de Niterói teria recebido cerca de
R$ 10 milhões em recursos somados de esferas federal, estadual e municipal. - A defesa da escola e órgãos como a Embratur argumentam que o repasse foi equânime: todas as escolas do Grupo Especial receberam os mesmos valores, independentemente do tema. No entanto, juristas alertam para o possível desvio de finalidade, caso se comprove que o recurso público foi utilizado para "insuflar eleitoralmente" um pré-candidato.
Vídeo: Desfile COMPLETO da Acadêmicos de Niterói que transformou Lula em protagonista
O desfile da Acadêmicos de Niterói em 2026 provou que o Carnaval continua sendo o maior palco de crônica social do Brasil, mas, neste caso, o preço da ousadia pode ser alto. Enquanto o público nas arquibancadas se dividia entre aplausos e vaias, o governo adotou uma postura de cautela estratégica, com Lula e Janja evitando a pista para não gerar provas de abuso de poder político. O resultado da apuração das notas pode ser o de menos; a verdadeira decisão virá das canetas dos ministros do TSE, que determinarão se a festa popular foi, na verdade, um comício antecipado.
