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sábado, 1 de novembro de 2025 às 12:08 GMT+0

Por que o crime organizado vence? A chave da segurança pública está no dinheiro, não nas favelas - A metáfora da casa-grande e da senzala

Este resumo analisa a abordagem da segurança pública brasileira, que, segundo o especialista Ricardo Brisolla Balestreri, tem se concentrado na repressão em comunidades carentes ("o térreo") enquanto ignora as lideranças e o financiamento do crime organizado ("o andar de cima").

O cenário crítico e o paradigma estruturalmente errado

O debate sobre a eficácia das políticas de segurança foi intensificado por eventos trágicos recentes, como a operação de 28 de outubro de 2025, no Rio de Janeiro, que resultou em mais de 120 mortes nos Complexos da Penha e do Alemão.

  • A crítica do especialista: Ricardo Balestreri, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, aponta que o foco exclusivo nas favelas e territórios periféricos é um erro estrutural.
  • A metáfora da casa-grande e da senzala: Balestreri utiliza a analogia de Gilberto Freyre para descrever a lógica perversa da segurança pública no Brasil. Historicamente, a política de segurança atua para proteger a "Casa-Grande" (as elites e áreas ricas) e para atacar e conter a "Senzala" (a população pobre), perpetuando um legado escravagista que enxerga o cidadão pobre como ameaça.

Por que as incursões policiais em favelas são ineficazes

A estratégia de operações pontuais e espetaculares nas comunidades não apenas causa trauma social, mas também demonstra pouca ou nenhuma eficiência no combate real ao crime.

  • Baixa eficiência comprovada: Um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre 18 mil incursões em favelas do Rio entre 2007 e 2022 revelou uma eficiência inferior a 2% na redução do crime, com quase 600 delas terminando em chacinas.
  • Repetição vã: Segundo Balestreri, repetir o mesmo modelo de incursões repressivas por décadas sem alterar a realidade estrutural das comunidades prova o esgotamento dessa tática.

A verdadeira geografia e economia do crime organizado

É fundamental compreender que o crime organizado não se resume às comunidades carentes; sua estrutura opera em um nível muito mais sofisticado e financeiro.

  • As armas de alto calibre: Fuzis e armamento pesado não são produzidos em favelas. Eles são negociados por redes internacionais com conexões em centros financeiros, condomínios de luxo e portos.
  • O "andar de cima": As operações criminosas englobam lavagem de dinheiro e a infiltração em setores legítimos da economia (como tráfico internacional de armas, combustíveis e bebidas), sendo geridas por líderes e financiadores que raramente são atingidos pelas operações em comunidades.

O contraste entre estratégias: Repressão vs. Inteligência financeira

O sucesso de uma operação que mira o financiamento do crime expõe a ineficácia das incursões armadas como estratégia principal.

  • O exemplo da operação carbono oculto: Deflagrada em agosto de 2025, essa operação mirou a estrutura financeira do crime, fruto de cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público. Ela apreendeu cerca de R$ 50 bilhões em recursos ilícitos sem a necessidade de confrontos.
  • A "cortina de fumaça": Enquanto a Carbono Oculto é vista como um modelo de sucesso por atacar as lideranças e a lavagem de dinheiro, a operação no Rio de Janeiro é classificada como uma "cortina de fumaça" que não gera impacto duradouro no poder do crime organizado.

Três eixos para um combate eficiente e sustentável

Para reverter o quadro, Balestreri propõe uma mudança de paradigma com foco em inteligência e políticas sociais.

1. Estancar o fluxo de armas: Foco na investigação das redes internacionais e dos financiadores que atuam no "andar de cima" para cortar o suprimento de armamento pesado.

2. Substituir por policiamento de proximidade: Trocar as operações pontuais de confronto por uma presença policial constante, integrada à comunidade, que construa confiança e atue na prevenção.

3. Investir em urbanismo social: Priorizar a vida e a dignidade nas áreas vulneráveis através de educação de qualidade, qualificação profissional e oportunidades para jovens, reduzindo o recrutamento pelo crime.

"A persistência do paradigma de 'Casa-Grande e Senzala' na segurança pública é o atestado de falência do Estado: operações espetaculares no 'térreo' não passam de paliativos que disfarçam a covardia em enfrentar o núcleo do problema. Romper o poder bilionário do crime organizado exige uma inversão estratégica e moral, onde a inteligência fiscal e o combate à lavagem de dinheiro substituam o confronto, mirando implacavelmente os 'altos escalões' da política e da economia, pois são os financiadores intocáveis que, de seus gabinetes e torres de luxo, continuam a ser os verdadeiros arquitetos do caos social e da violência."

A urgência de mudar o paradigma

A segurança pública brasileira precisa urgentemente superar a mentalidade escravagista que a orienta. Enquanto o foco permanecer na repressão da pobreza ("o térreo"), o crime organizado continuará fortalecido, com seus líderes intocáveis e recursos bilionários. O caminho para o avanço passa pela priorização de políticas baseadas em inteligência, cooperação institucional e, fundamentalmente, respeito à vida e dignidade das populações mais vulneráveis.

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