Entenda a "Limerência": A condição psicológica que muitos confundem com o amor - Paixão que pode levar à obsessão e ao stalking
A limerência é um estado emocional intenso que muitas vezes é confundido com paixão ou “crush”, mas vai além do encantamento comum. O termo foi criado pela psicóloga Dorothy Tennov no livro Love and Limerence: The Experience of Being in Love, após entrevistas com centenas de pessoas sobre amor romântico. Ela identificou um padrão específico: um desejo involuntário, intrusivo e obsessivo por outra pessoa, acompanhado de forte necessidade de reciprocidade.
O que é limerência?
A limerência é um estado psicológico marcado por:
- Pensamentos constantes e intrusivos sobre uma pessoa (o “objeto limerente”).
- Idealização intensa.
- Necessidade urgente de reciprocidade emocional.
- Sensação de euforia quando há sinais positivos e profundo sofrimento diante de incertezas.
Diferente de uma paixão saudável, a limerência é alimentada principalmente pela incerteza. Pequenos gestos, olhares ou mensagens podem ser interpretados como sinais decisivos, gerando esperança extrema ou ansiedade intensa.
Um episódio pode durar, em média, de 18 meses a três anos embora existam casos mais longos.
O “lampejo” da esperança: o combustível da obsessão
Pesquisadores descrevem que a limerência se sustenta em um ciclo de expectativa e dúvida. Um simples “talvez” mantém o estado ativo.
Esse mecanismo funciona assim:
- A pessoa interpreta qualquer sinal ambíguo como possibilidade de reciprocidade.
- A incerteza aumenta o desejo.
- A ausência de confirmação clara prolonga o sofrimento.
- O cérebro entra em um padrão semelhante ao de dependência, buscando recompensas emocionais intermitentes.
Estudos indicam que a paixão romântica ativa o sistema dopaminérgico de recompensa. Na limerência, esse componente pode se intensificar a ponto de assumir características semelhantes às de um comportamento compulsivo.
Limerência, paixão e fascínio: Qual a diferença?
Embora compartilhem elementos em comum, há diferenças importantes:
Fascínio inicial
- Dura geralmente de três a seis meses.
- É intenso, mas tende a diminuir naturalmente.
- Não costuma causar prejuízos significativos.
Paixão romântica
- Envolve desejo de intimidade emocional e conexão genuína.
- Pode incluir pensamentos frequentes, mas com maior equilíbrio.
- Evolui para estabilidade ou se encerra com maior clareza emocional.
Limerência
- Baseia-se na obsessão e na necessidade de validação.
- Mantém a pessoa presa à incerteza.
- Pode prejudicar trabalho, sono, alimentação e outros relacionamentos.
- Não depende necessariamente de querer um relacionamento real, às vezes a necessidade é apenas de reciprocidade emocional.
Impactos na vida pessoal e profissional
A limerência pode causar:
- Queda de produtividade.
- Ruminação constante sobre interações passadas.
- Negligência da saúde física e emocional.
- Isolamento social.
- Ansiedade intensa ao encontrar a pessoa desejada.
Em casos mais graves, pode evoluir para comportamentos inadequados, como perseguição. Contudo, é importante destacar que limerência e stalking não são a mesma coisa. A maioria das pessoas limerentes mantém consciência de limites e não ultrapassa barreiras éticas ou legais.
A limerência é um transtorno?
Atualmente, a limerência não é reconhecida formalmente como um transtorno mental em manuais diagnósticos. Pesquisas recentes investigam possíveis associações com:
- Estilos de apego ansioso.
- Transtorno obsessivo-compulsivo.
- TDAH.
- Experiências traumáticas.
No entanto, os dados ainda são limitados. Estudos com questionários específicos sugerem que a limerência pode ocorrer mesmo em pessoas sem histórico de baixa autoestima ou ansiedade social generalizada. A ansiedade tende a se concentrar exclusivamente na pessoa desejada.
A limerência pode virar amor saudável?
- Sim, em alguns casos. Quando há reciprocidade clara e construção de vínculo baseado em respeito, cuidado e intimidade emocional, o estado inicial pode evoluir para amor maduro.
- Por outro lado, quando não há reciprocidade ou quando a incerteza persiste, a tendência é que o sofrimento aumente.
Especialistas apontam algumas estratégias que podem ajudar a reduzir a limerência:
- Reduzir ou cortar contato com a pessoa.
- Evitar situações que alimentem fantasias.
- Buscar terapia para compreender padrões emocionais.
- Fortalecer outras áreas da vida e relacionamentos reais.
- Trabalhar a tolerância à frustração e à rejeição.
Sem o “lampejo” de esperança, o ciclo tende a enfraquecer gradualmente.
Quando o amor deixa de ser amor: O limite entre paixão e obsessão
A limerência é uma experiência emocional intensa que pode se disfarçar de paixão, mas se revela pela dependência da reciprocidade e pela prisão à incerteza constante. Embora não seja oficialmente classificada como transtorno, seus efeitos podem ser profundos, desgastantes e prejudiciais à vida pessoal e emocional. Reconhecer seus sinais é essencial para impedir que a euforia inicial evolua para sofrimento persistente e, sobretudo, para aprender a distinguir entre um amor saudável que é baseado em troca, equilíbrio e maturidade e uma obsessão que consome energia, lucidez e bem-estar.
