O que é escala 996? Entenda a jornada de trabalho das gigantes de tecnologia em 2026 - Burnout e normalização do adoecimento no trabalho
A cultura 996, caracterizada por jornadas das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana, tem sido promovida por empresas de tecnologia como um símbolo de excelência, ambição e inovação. No entanto, por trás do discurso de alta performance, cresce um debate cada vez mais urgente sobre os impactos desse modelo na saúde física e mental dos trabalhadores. Em meio à corrida acelerada pela liderança em inteligência artificial, o preço pago pelo corpo e pela mente começa a se tornar inegável.
O pacote de “benefícios” como estratégia de atração
- Para tornar jornadas extremas mais aceitáveis, muitas empresas que adotam a cultura 996 investem em pacotes de benefícios aparentemente generosos: Salários acima da média do mercado, refeições gratuitas no local de trabalho, academias internas, assistência médica e odontológica, além de ambientes modernos e informais, são apresentados como vantagens competitivas.
- Esses benefícios, porém, cumprem também uma função estratégica: reduzir a necessidade de o funcionário sair do ambiente corporativo: Ao oferecer alimentação, lazer e cuidados básicos no próprio local de trabalho, a empresa estimula a permanência prolongada no escritório e dilui a percepção de excesso de horas trabalhadas.
Na prática, o que se vende como qualidade de vida muitas vezes serve para normalizar a ausência de tempo livre, de descanso adequado e de convivência social fora do trabalho, fatores essenciais para a saúde mental.
Trabalho excessivo e desgaste físico contínuo
- Jornadas prolongadas submetem o corpo a um estado constante de estresse: A privação de sono, aliada à falta de pausas reais para recuperação, compromete o sistema imunológico e eleva o risco de doenças cardiovasculares.
- Estudos indicam que trabalhar mais de 55 horas por semana aumenta significativamente a incidência de AVCs e doenças do coração: O organismo, exposto continuamente a níveis elevados de cortisol, entra em um processo de desgaste acelerado, com consequências que podem ser irreversíveis.
Impactos diretos na saúde mental
- A cultura 996 também impõe um alto custo psicológico: A pressão permanente por resultados, combinada à expectativa de disponibilidade constante, contribui para quadros de ansiedade, depressão e esgotamento emocional.
- O burnout, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacional, surge quando a exaustão se torna crônica: Profissionais relatam perda de motivação, dificuldade de concentração e sensação de vazio, mesmo quando atingem metas e são financeiramente recompensados.
Saúde em risco: Quando o corpo cobra a conta
Os impactos das longas jornadas sobre a saúde são amplamente documentados. No Japão, o fenômeno é tão recorrente que ganhou nomes próprios:
- Karōshi: Morte por excesso de trabalho, geralmente associada a AVCs e ataques cardíacos.
- Karōjisatsu: Suicídio relacionado ao estresse ocupacional.
Esses conceitos evidenciam os riscos de tratar o trabalho excessivo como virtude e reforçam o alerta sobre os limites biológicos e psicológicos do ser humano.
A ilusão da alta produtividade
- Embora defendida como um caminho para melhores resultados, a cultura 996 esbarra em limites claros da produtividade humana: Pesquisas mostram que, após certo ponto, o aumento das horas trabalhadas leva à queda de desempenho, maior incidência de erros e redução da criatividade.
- Profissionais que trabalham 70 horas por semana: Frequentemente não produzem de forma significativamente superior àqueles com jornadas menores, mas apresentam níveis muito mais elevados de exaustão e adoecimento.
Pressão psicológica e a falsa sensação de escolha
- Apesar do discurso de adesão voluntária, muitos trabalhadores permanecem nesse modelo por medo do desemprego, dependência de vistos ou dificuldades no mercado de trabalho. A cultura corporativa frequentemente transforma resistência em sinal de fraqueza, criando um ambiente em que admitir cansaço ou buscar ajuda é visto como falta de comprometimento.
- Essa dinâmica reforça a normalização do adoecimento e dificulta a construção de limites saudáveis.
Evidências a favor de jornadas mais saudáveis
- Experiências com redução da carga horária, como a semana de quatro dias, demonstram impactos positivos claros na saúde. Houve diminuição do estresse, melhora na qualidade do sono e maior equilíbrio emocional, sem perda relevante de produtividade.
- Empresas que adotaram esses modelos também observaram menor absenteísmo, menos afastamentos médicos e maior retenção de talentos.
Equilibrando ambição e humanidade
- A cultura 996 expõe uma contradição central do mundo do trabalho contemporâneo: enquanto empresas investem em benefícios sofisticados para atrair talentos, impõem rotinas que comprometem a saúde física e mental desses mesmos profissionais.
As evidências mostram que jornadas extremas não representam progresso sustentável. Em um cenário de inovação acelerada, proteger a saúde dos trabalhadores não é um luxo nem um obstáculo ao crescimento, mas uma condição essencial para que o desenvolvimento seja humano, responsável e duradouro.
