AI Slop: O fenômeno "tosco" do conteúdo de IA de baixa qualidade - Quando algoritmos recompensam o conteúdo vazio
Imagens absurdas, vídeos perturbadores e histórias emocionalmente manipulativas: esse é o retrato do chamado AI slop, termo usado para definir conteúdos de baixa qualidade, gerados por inteligência artificial, que se espalham rapidamente nas redes sociais. Apesar de claramente artificiais, essas publicações acumulam milhões de curtidas, visualizações e compartilhamentos, levantando uma questão inquietante: como chegamos a esse ponto e o quanto isso realmente importa?
A explosão do AI slop revela não apenas os limites atuais da tecnologia, mas também fragilidades profundas no ecossistema digital, na economia da atenção e na capacidade coletiva de distinguir o real do fabricado.
O estopim: Quando o absurdo vira viral
Théodore, um estudante de 20 anos de Paris, lembra exatamente do momento em que perdeu a paciência com o AI slop. A imagem que o incomodou mostrava dois meninos sul-asiáticos extremamente magros, sentados no meio de uma rua alagada, sob chuva intensa, com um bolo de aniversário. Apesar dos traços infantis, ambos tinham barbas volumosas; um deles não tinha mãos e o outro segurava um cartaz pedindo curtidas por ser seu aniversário.
- A cena reunia todos os sinais de uma criação artificial descuidada. Ainda assim, viralizou no Facebook, alcançando quase um milhão de curtidas.
- Para Théodore, aquilo foi um choque. O conteúdo era evidentemente falso, estranho e incoerente, mas recebia engajamento massivo, sem qualquer questionamento.
Da indignação à mobilização online
Incomodado com a naturalização desse tipo de conteúdo, Théodore criou no X a conta “Insane AI Slop”, dedicada a expor e ironizar publicações enganosas geradas por IA. Rapidamente, outros usuários passaram a enviar exemplos semelhantes, e o perfil ganhou grande visibilidade, ultrapassando 133 mil seguidores.
Ao observar os padrões, ele identificou temas recorrentes:
- Crianças pobres em situações emocionais extremas
- Simbolismo religioso exagerado
- Cenários militares ou heroicos
- Histórias “edificantes” fabricadas para provocar comoção
Segundo Théodore, esse tipo de conteúdo explora emoções básicas, como pena, fé e admiração, porque isso garante engajamento rápido e massivo.
A terceira fase das redes sociais: Mais conteúdo, menos critério
A proliferação do AI slop não é acidental: Grandes empresas de tecnologia vêm incentivando, direta ou indiretamente, a produção de conteúdo gerado por IA.
- O CEO da Meta, Mark Zuckerberg: Declarou que as redes sociais entraram em uma “terceira fase”, marcada pela ampliação radical da criação e remixagem de conteúdo com auxílio da inteligência artificial. Ferramentas de geração de imagens, vídeos e filtros avançados passaram a ser integradas às plataformas de forma ampla.
- O YouTube segue caminho semelhante: Apenas em um mês, mais de um milhão de canais utilizaram ferramentas de IA da plataforma para criar conteúdo. Embora a empresa reconheça preocupações com material de baixa qualidade, evita fazer julgamentos mais rígidos sobre o que deve ou não circular.
O resultado é um ambiente digital inundado por vídeos e imagens artificiais, muitos deles repetitivos, mal elaborados e emocionalmente manipulativos.
Quando o estranho se torna perturbador
A reação contrária ao AI slop ganhou força quando esse conteúdo ultrapassou o campo do bizarro e passou a flertar com o perturbador.
- Théodore denunciou ao YouTube uma série de vídeos animados gerados por IA que apresentavam cenas grotescas, muitas vezes direcionadas a crianças. Alguns mostravam animais sofrendo, parasitas mortais, transformações monstruosas e até figuras religiosas surgindo como solução mágica para horrores explícitos.
- Após denúncias, a plataforma removeu os canais por violarem suas diretrizes. Ainda assim, o desgaste foi inevitável. O episódio evidenciou como a automação da produção de conteúdo pode gerar consequências psicológicas e sociais difíceis de controlar.
A fúria nos comentários e o paradoxo do engajamento
Hoje, a resistência ao AI slop é visível nas próprias redes. Comentários críticos, irônicos ou revoltados frequentemente recebem mais curtidas do que o conteúdo original.
- No entanto, há um paradoxo: toda reação gera engajamento: Para as plataformas, não importa se o usuário curte ou odeia, o essencial é que continue rolando a tela, comentando e interagindo.
- Assim, mesmo a indignação acaba alimentando o sistema que sustenta a proliferação desse tipo de conteúdo.
Entre entretenimento e desinformação
- Especialistas apontam que o impacto do AI slop depende do uso que as pessoas fazem das redes sociais: Para quem busca apenas distração, o critério costuma ser simples:
“isso é divertido?”. Já para quem utiliza essas plataformas como fonte de informação ou aprendizado, o conteúdo artificial pode ser profundamente prejudicial. - O problema se agrava quando o AI slop é criado com a intenção deliberada de enganar: Vídeos hiper-realistas, apresentados como documentários ou registros jornalísticos, confundem usuários e corroem a confiança coletiva no que é autêntico.
O risco do “apodrecimento cerebral”
- Pesquisadores alertam para um efeito cumulativo. A exposição constante a conteúdos rápidos, vazios e sem significado pode reduzir a capacidade de atenção, reflexão crítica e discernimento.
- Mesmo o AI slop assumidamente fantasioso como animais humanizados ou cenas impossíveis, contribui para esse desgaste mental, incentivando o consumo automático e superficial.
Moderação em queda, responsabilidade em alta
- Enquanto isso, muitas plataformas reduziram equipes de moderação humana, transferindo aos próprios usuários a tarefa de identificar e rotular conteúdos falsos. O problema é que, com a evolução da IA, distinguir o real do artificial tornou-se cada vez mais difícil, até mesmo para especialistas.
- Analistas defendem a criação de sistemas que permitam comprovar a autenticidade de imagens e vídeos, em vez de tentar apenas detectar o que é falso. Sem isso, o ambiente informacional tende a se degradar ainda mais.
Existe futuro para redes sociais sem AI slop?
- A ideia de uma rede social livre desse tipo de conteúdo parece improvável, ao menos no curto prazo. A tecnologia avança mais rápido do que os mecanismos de controle, e o julgamento subjetivo sobre o que é “conteúdo de baixa qualidade” permanece controverso.
- Ainda assim, experiências passadas mostram que propostas baseadas em autenticidade podem influenciar o mercado. Mesmo sem derrubar gigantes, alternativas conseguem pressionar mudanças.
Para Théodore, a batalha já não é contra a inteligência artificial, mas contra a normalização da poluição digital que ela vem alimentando: um fluxo incessante de imagens e narrativas vazias, projetadas para manipular emoções e capturar atenção a qualquer custo. O AI slop dificilmente será contido, não por falhas técnicas, mas porque encontrou terreno fértil em uma cultura que recompensa o imediatismo, o choque e o engajamento acrítico. Diante disso, o destino das redes sociais talvez não esteja nas mãos dos algoritmos ou das plataformas, mas na disposição coletiva de impor limites e decidir, conscientemente, até onde estamos dispostos a aceitar a degradação do espaço público digital.
