BYD na lista suja: Os bastidores do resgate de trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão no Brasil
Como a operação começou
- As suspeitas surgiram em 2024 após denúncias de maus-tratos e agressões contra trabalhadores da obra.
- Uma força-tarefa formada por auditores fiscais, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal e intérpretes de mandarim realizou inspeções no canteiro da fábrica e descobriu alojamentos escondidos que não haviam sido informados pelas empresas responsáveis.
O que os fiscais encontraram
Os trabalhadores viviam em condições consideradas degradantes:
- Camas improvisadas de madeira
- Ambientes superlotados e sem higiene
- Cozinhas sujas e instalações precárias
- Jornadas exaustivas, sem folgas adequadas
- Trabalho sob calor intenso e sem proteção
- Passaportes retidos pelas empresas
- Dificuldade para deixar o Brasil
Os relatos também apontaram retenção salarial, vigilância constante e isolamento causado pela barreira da língua.
Promessas que não foram cumpridas
Os trabalhadores foram recrutados na China com promessas de altos salários, mas muitos recebiam apenas parte do valor combinado.
Além disso:
- Parte do pagamento ficava retida até o fim do contrato
- Muitos não conseguiam acessar o dinheiro no Brasil
- Quem desistisse do trabalho perderia valores retidos e teria de pagar a própria passagem de volta
A responsabilidade da BYD
Embora a contratação tenha sido feita por terceirizadas chinesas, os fiscais concluíram que a BYD tinha responsabilidade direta sobre a operação.
Segundo o relatório:
- A montadora participou do processo migratório dos trabalhadores
- Engenheiros da empresa supervisionavam as atividades
- As terceirizadas atuavam como extensões operacionais da BYD
Entrada na “lista suja”
- Em abril de 2026, a BYD entrou no cadastro oficial de empregadores ligados ao trabalho análogo à escravidão.
- A empresa conseguiu retirar temporariamente seu nome da lista após obter uma liminar judicial apenas três dias depois da divulgação.
A crise política em Brasília
- O caso ganhou ainda mais repercussão após a demissão de Luiz Felipe Brandão de Mello, secretário responsável pela área de inspeção do trabalho.
- Entidades de auditores fiscais afirmam que houve pressão política dentro do Ministério do Trabalho para evitar ou atrasar a divulgação do nome da BYD na lista.
- O episódio aumentou o debate sobre possíveis interferências políticas em processos de combate ao trabalho escravo no Brasil.
Quando o crescimento econômico encontra os limites dos direitos humanos
O caso da BYD em Camaçari terminou com a rescisão dos contratos dos 163 trabalhadores chineses, o pagamento de verbas indenizatórias e o retorno de todo o grupo à China. Para encerrar as ações civis públicas, a montadora firmou um acordo de R$ 40 milhões com o Ministério Público do Trabalho. Apesar do desfecho financeiro, o episódio expõe o lado sombrio das cadeias globais de suprimentos na transição energética e acende um alerta sobre as pressões políticas que ameaçam a independência e a eficácia das fiscalizações trabalhistas no Brasil.
