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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 às 11:06 GMT+0

Morte de El Mencho fortalece o PCC? Entenda o novo mapa do narcotráfico na América Latina

A morte de El Mencho reacendeu o debate sobre os rumos do narcotráfico na América Latina. O líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), Nemesio Oseguera, era um dos criminosos mais procurados do mundo e sua eliminação foi celebrada por autoridades do México e dos Estados Unidos como um grande golpe ao crime organizado.

No entanto, especialistas alertam que o efeito pode ser o oposto do esperado: em vez de enfraquecer o crime, a operação pode reorganizar forças e abrir espaço para grupos mais estruturados entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A morte que pode gerar fragmentação

Segundo análises de segurança, três cenários principais podem surgir após a queda de El Mencho:

  • Fragmentação do CJNG, com disputas internas entre comandantes.
  • Absorção parcial por rivais como o Cartel de Sinaloa.
  • Reorganização violenta até que uma nova liderança se consolide.

Organizações estruturadas em torno de um líder carismático tendem a sofrer mais com a estratégia chamada “kingpin”, que elimina o chefe esperando desmantelar a rede. A experiência histórica com Cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar, e com o cartel de Joaquín El Chapo Guzmán mostra que a queda do líder não encerra o problema, ela frequentemente gera ciclos de violência e reacomodação.

No caso do CJNG, a ausência de uma sucessão clara pode acelerar disputas e enfraquecer temporariamente suas rotas e operações.

O espaço estratégico: Europa e Amazônia

O CJNG vinha atuando fortemente em:

  • Rotas de cocaína e drogas sintéticas para a Europa.
  • Apoio logístico à mineração ilegal na América do Sul.
  • Comércio clandestino de mercúrio ligado ao garimpo na Amazônia.

A região amazônica tornou-se ponto estratégico não apenas para o tráfico de drogas, mas também para ouro e minerais. A atuação dos cartéis, segundo especialistas, não ocorre diretamente na extração, mas no fornecimento de logística, financiamento e lavagem de dinheiro.

Caso o CJNG perca capacidade operacional, essas redes buscarão parceiros mais estáveis — e é aí que o PCC pode ganhar protagonismo.

Por que o PCC é visto como “mais profissional”

O diferencial apontado por pesquisadores é estrutural. O PCC não depende de um único líder carismático. Mesmo com Marcola preso há décadas, a organização mantém funcionamento contínuo.

Características que explicam essa resiliência:

  • Estrutura descentralizada e colegiada.
  • Decisões estratégicas tomadas por um núcleo coletivo.
  • Modelo comparado ao de uma empresa.
  • Uso “utilitário” da violência, evitando confronto direto e permanente com o Estado.

Diferentemente de cartéis mexicanos que enfrentam forças de segurança com ataques ostensivos, inclusive contra infraestrutura pública, o PCC após os ataques de 2006 em São Paulo, passou a evitar guerras abertas. A violência tornou-se instrumento estratégico e seletivo, não espetáculo de poder.

Essa postura reduz custos, evita pressão internacional e mantém estabilidade nas rotas de negócio.

O impacto geopolítico e o discurso dos EUA

A operação que matou El Mencho contou com cooperação entre México e Estados Unidos. Politicamente, isso fortalece o discurso de endurecimento contra cartéis, especialmente sob a liderança de Donald Trump.

Entretanto, especialistas apontam contradições:

  • Os EUA são o principal mercado consumidor de drogas.
  • Grande parte das armas usadas por cartéis mexicanos tem origem no mercado americano.
  • A estratégia focada na eliminação de líderes não altera a estrutura do mercado ilegal.

Há ainda o risco de que ações violentas de retaliação por parte do CJNG reforcem argumentos para classificar cartéis como organizações terroristas, ampliando o poder de intervenção americana.

O Brasil está preparado?

O possível fortalecimento do PCC levanta uma questão central: as instituições brasileiras têm estrutura para enfrentar uma organização ainda mais internacionalizada?

Apesar da experiência acumulada por órgãos como a Polícia Federal, especialistas apontam desafios:

  • Efetivo considerado reduzido para a dimensão territorial do país.
  • Dificuldades legais no combate à infiltração financeira e política.
  • Foco excessivo no “varejo” do crime, com menos instrumentos para atingir o alto comando e a lavagem de dinheiro.

O combate moderno ao crime organizado exige atuação sobre fluxos financeiros globais, criptomoedas, redes logísticas e conexões políticas, dimensões que vão além da repressão tradicional.

O fim de um chefão, o início de uma nova era do crime organizado

A morte de El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, pode não significar o enfraquecimento do narcotráfico na América Latina, mas sim sua reconfiguração estratégica. Caso o cartel se fragmente, o espaço deixado dificilmente ficará vazio e tende a ser ocupado por organizações mais estruturadas e resilientes, como o Primeiro Comando da Capital, que opera com modelo descentralizado, lógica empresarial e uso calculado da violência. O que se desenha não é o colapso do crime organizado, mas uma transição de liderança e de método, em que a disputa deixa de ser apenas por território e passa a ser pelo modelo de gestão que dominará a próxima fase da geopolítica do tráfico nas Américas.

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