Morte de El Mencho fortalece o PCC? Entenda o novo mapa do narcotráfico na América Latina
A morte de El Mencho reacendeu o debate sobre os rumos do narcotráfico na América Latina. O líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), Nemesio Oseguera, era um dos criminosos mais procurados do mundo e sua eliminação foi celebrada por autoridades do México e dos Estados Unidos como um grande golpe ao crime organizado.
A morte que pode gerar fragmentação
Segundo análises de segurança, três cenários principais podem surgir após a queda de El Mencho:
- Fragmentação do CJNG, com disputas internas entre comandantes.
- Absorção parcial por rivais como o Cartel de Sinaloa.
- Reorganização violenta até que uma nova liderança se consolide.
Organizações estruturadas em torno de um líder carismático tendem a sofrer mais com a estratégia chamada “kingpin”, que elimina o chefe esperando desmantelar a rede. A experiência histórica com Cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar, e com o cartel de Joaquín El Chapo Guzmán mostra que a queda do líder não encerra o problema, ela frequentemente gera ciclos de violência e reacomodação.
No caso do CJNG, a ausência de uma sucessão clara pode acelerar disputas e enfraquecer temporariamente suas rotas e operações.
O espaço estratégico: Europa e Amazônia
O CJNG vinha atuando fortemente em:
- Rotas de cocaína e drogas sintéticas para a Europa.
- Apoio logístico à mineração ilegal na América do Sul.
- Comércio clandestino de mercúrio ligado ao garimpo na Amazônia.
A região amazônica tornou-se ponto estratégico não apenas para o tráfico de drogas, mas também para ouro e minerais. A atuação dos cartéis, segundo especialistas, não ocorre diretamente na extração, mas no fornecimento de logística, financiamento e lavagem de dinheiro.
Caso o CJNG perca capacidade operacional, essas redes buscarão parceiros mais estáveis — e é aí que o PCC pode ganhar protagonismo.
Por que o PCC é visto como “mais profissional”
O diferencial apontado por pesquisadores é estrutural. O PCC não depende de um único líder carismático. Mesmo com Marcola preso há décadas, a organização mantém funcionamento contínuo.
Características que explicam essa resiliência:
- Estrutura descentralizada e colegiada.
- Decisões estratégicas tomadas por um núcleo coletivo.
- Modelo comparado ao de uma empresa.
- Uso “utilitário” da violência, evitando confronto direto e permanente com o Estado.
Diferentemente de cartéis mexicanos que enfrentam forças de segurança com ataques ostensivos, inclusive contra infraestrutura pública, o PCC após os ataques de 2006 em São Paulo, passou a evitar guerras abertas. A violência tornou-se instrumento estratégico e seletivo, não espetáculo de poder.
Essa postura reduz custos, evita pressão internacional e mantém estabilidade nas rotas de negócio.
O impacto geopolítico e o discurso dos EUA
A operação que matou El Mencho contou com cooperação entre México e Estados Unidos. Politicamente, isso fortalece o discurso de endurecimento contra cartéis, especialmente sob a liderança de Donald Trump.
Entretanto, especialistas apontam contradições:
- Os EUA são o principal mercado consumidor de drogas.
- Grande parte das armas usadas por cartéis mexicanos tem origem no mercado americano.
- A estratégia focada na eliminação de líderes não altera a estrutura do mercado ilegal.
Há ainda o risco de que ações violentas de retaliação por parte do CJNG reforcem argumentos para classificar cartéis como organizações terroristas, ampliando o poder de intervenção americana.
O Brasil está preparado?
O possível fortalecimento do PCC levanta uma questão central: as instituições brasileiras têm estrutura para enfrentar uma organização ainda mais internacionalizada?
Apesar da experiência acumulada por órgãos como a Polícia Federal, especialistas apontam desafios:
- Efetivo considerado reduzido para a dimensão territorial do país.
- Dificuldades legais no combate à infiltração financeira e política.
- Foco excessivo no “varejo” do crime, com menos instrumentos para atingir o alto comando e a lavagem de dinheiro.
O combate moderno ao crime organizado exige atuação sobre fluxos financeiros globais, criptomoedas, redes logísticas e conexões políticas, dimensões que vão além da repressão tradicional.
O fim de um chefão, o início de uma nova era do crime organizado
A morte de El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, pode não significar o enfraquecimento do narcotráfico na América Latina, mas sim sua reconfiguração estratégica. Caso o cartel se fragmente, o espaço deixado dificilmente ficará vazio e tende a ser ocupado por organizações mais estruturadas e resilientes, como o Primeiro Comando da Capital, que opera com modelo descentralizado, lógica empresarial e uso calculado da violência. O que se desenha não é o colapso do crime organizado, mas uma transição de liderança e de método, em que a disputa deixa de ser apenas por território e passa a ser pelo modelo de gestão que dominará a próxima fase da geopolítica do tráfico nas Américas.
