O triste motivo que levou ao cancelamento do maior evento de Sakura( cerejeiras) no Japão : Invasão e sujeira - O lado obscuro do turismo
A primavera no Japão é mundialmente famosa pelo espetáculo das flores de cerejeira (sakura), mas, em 2026, o cenário na cidade de Fujiyoshida é de um silêncio forçado. Em uma decisão drástica anunciada nesta semana, as autoridades locais cancelaram o tradicional festival anual. O motivo não é a falta de flores, mas o comportamento insustentável dos visitantes que, em busca da "foto perfeita" do Monte Fuji, acabaram por comprometer a dignidade e a rotina dos moradores locais.
O limite da paciência em Fujiyoshida
- Fujiyoshida, uma cidade de aproximadamente 44 mil habitantes, viu-se subitamente invadida por uma média de 10 mil turistas diários durante o pico da floração. Esse fluxo desproporcional transformou a tranquilidade local em um cenário de crise urbana. O prefeito Shigeru Horiuchi foi enfático ao declarar que a suspensão do evento, realizado há uma década, tornou-se a única alternativa para proteger as condições de moradia dos cidadãos. Segundo a administração municipal, o "turismo excessivo" ultrapassou a capacidade de suporte da infraestrutura local, gerando congestionamentos crônicos e acúmulo de lixo.
Invasão de privacidade e incidentes inaceitáveis
O que motivou o cancelamento não foram apenas as multidões, mas a gravidade dos incidentes relatados pelos residentes. A busca pelo ângulo ideal para redes sociais levou turistas a ignorarem normas básicas de civilidade:
- Violação de domicílio: Moradores relataram turistas abrindo portas de casas particulares sem permissão, tentando utilizar banheiros privados.
- Danos a propriedades: Invasão de jardins e quintais para sessões de fotos, resultando em danos à vegetação e sujeira.
- Falta de higiene pública: Relatos de turistas defecando em áreas privadas após serem confrontados ou por falta de acesso imediato a instalações públicas.
Esses comportamentos transformaram o que deveria ser uma celebração da natureza em um conflito direto entre a hospitalidade japonesa e o desrespeito dos visitantes.
O peso do iene e o efeito das redes sociais
- A explosão no número de visitantes é atribuída a uma combinação de fatores econômicos e digitais. A desvalorização do iene tornou o Japão um destino extremamente acessível para estrangeiros, enquanto locais como o Parque Arakurayama Sengen tornaram-se virais globalmente. O pagode do parque, que oferece uma vista panorâmica com o Monte Fuji ao fundo, é hoje um dos pontos mais "instagramáveis" do planeta, atraindo multidões que priorizam o registro digital em detrimento do respeito à cultura e ao espaço local.
Um fenômeno global de restrições
Fujiyoshida não está sozinha nesta batalha. Outras cidades adotaram medidas severas para conter o turismo predatório:
- Fujikawaguchiko: Em 2024, a cidade instalou uma barreira física para bloquear a visão do Monte Fuji em um ponto específico onde turistas bloqueavam o trânsito e estacionavam ilegalmente.
- Roma (Itália): Recentemente, as autoridades passaram a cobrar uma taxa de 2 euros para o acesso à Fontana di Trevi, visando controlar o fluxo de pessoas.
- Veneza (Itália): A cidade implementou um sistema de cobrança de entrada para visitantes de um dia, com valores que variam entre 5 e 10 euros, dependendo da antecedência da reserva.
O futuro do turismo consciente
O cancelamento do festival em Fujiyoshida serve como um alerta severo para a indústria do turismo global. A beleza de um destino não pode existir às custas do bem-estar de quem nele reside. Enquanto a cidade se prepara para um possível aumento espontâneo de visitantes nos meses de abril e maio, mesmo sem o festival, o foco agora muda da promoção turística para a imposição de limites. O caso reforça que, na era da conectividade extrema, o respeito ao espaço alheio deve ser o primeiro item na bagagem de qualquer viajante.
