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quinta-feira, 2 de abril de 2026 às 11:33 GMT+0

Por dentro da vida dos bilionários: A verdade sobre empregados domésticos dos super-ricos

A pesquisa da socióloga francesa Alizée Delpierre, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), oferece um olhar raro e científico sobre a intimidade das grandes fortunas. Em seu livro Servir les riches (Servir aos super-ricos), lançado originalmente no final de 2024 e com repercussão estendida até 2026, ela descreve o que chama de "servidão moderna". Para entender essa dinâmica, Delpierre não se limitou a entrevistas: ela se infiltrou, trabalhando como babá e assistente de cozinha em mansões em Paris, na Riviera Francesa e até na China.

Abaixo, os pontos fundamentais dessa investigação que revela as engrenagens de poder escondidas atrás de muros luxuosos.

O conceito de exploração dourada

A socióloga utiliza o termo "exploração dourada" para descrever o paradoxo vivido por esses funcionários. Diferente da precariedade absoluta que costuma definir a exploração no senso comum, aqui os valores financeiros são expressivos.

  • Remuneração elevada: Os salários podem variar entre 3.000 e 12.000 euros (aproximadamente entre R$ 19 mil e R$ 76 mil), valores muito superiores ao salário mínimo francês de 1.800 euros.
  • A dívida da gratidão: Além do salário, os empregados recebem presentes de luxo, como roupas da Chanel e bolsas de grifes exclusivas. No entanto, esse "luxo compartilhado" cria uma dívida simbólica. O patrão sente-se legitimado a exigir disponibilidade total (24 horas por dia), e o funcionário sente que precisa compensar os privilégios recebidos com obediência absoluta.
  • Trabalho ilimitado: Babás, por exemplo, muitas vezes dormem no quarto das crianças, perdendo o direito ao sono ininterrupto e à privacidade.

A armadilha do afeto: "Parte da família"

Uma das descobertas mais interessantes de Delpierre é como a proximidade emocional é usada como ferramenta de controle. Ao tratar o empregado como "da família", as barreiras profissionais são derrubadas, permitindo que os patrões façam exigências que nenhum contrato de trabalho formal aceitaria.

"As emoções são reais, há carinho e cuidado, mas é justamente na intimidade do lar, onde ninguém de fora observa, que as formas mais agudas de dominação e violência simbólica ocorrem."

Invisibilidade e despersonalização

Mesmo com a proximidade afetiva, os ultrarricos mantêm distâncias rígidas através de mecanismos de despersonalização e segregação espacial:

  • Arquitetura da exclusão: Mansões possuem corredores e acessos específicos para que os funcionários circulem sem serem notados pelos patrões ou seus convidados.
  • Troca de nomes: É comum patrões alterarem os nomes de seus funcionários para nomes "mais franceses" ou nomes padronizados. Delpierre cita o exemplo de casas onde todas as babás, independentemente da identidade real, são chamadas de "Maria".
  • Racialização e estereótipos: A contratação é baseada em preconceitos estruturais. Mulheres negras são preferidas para o cuidado infantil sob o estereótipo de serem "naturalmente carinhosas", enquanto homens brancos europeus costumam ocupar o topo da hierarquia, como mordomos.

O medo da dependência: O lado vulnerável dos ricos

  • Contrariando a ficção (como no filme Parasita), Delpierre afirma que os ricos raramente sentem medo físico ou financeiro de seus empregados, pois detêm o capital social e jurídico. No entanto, existe um medo psicológico profundo: a incapacidade de autogestão.
  • A pesquisa revelou que muitos bilionários desenvolveram uma dependência tão severa que entram em pânico com a ideia de perder seus funcionários. Há relatos de mães que não sabem o caminho para a escola dos próprios filhos ou adultos que não sabem preparar uma refeição simples ou operar aparelhos domésticos. O maior "pesadelo" desses patrões não é uma revolta, mas o pedido de demissão.

A permanência da domesticidade

A análise de Alizée Delpierre conclui que, embora o vocabulário tenha tentado se modernizar para "trabalhadores domésticos", a estrutura real permanece idêntica à domesticidade dos séculos passados. A socióloga opta por manter o termo "serviçal" ou "doméstico" justamente para não maquiar a realidade: uma relação de poder onde o dinheiro compra não apenas o tempo, mas a própria identidade e a liberdade do indivíduo.

Essa "servidão moderna" reflete uma desigualdade global onde a elite terceiriza as funções mais básicas da vida humana para manter um estilo de vida focado exclusivamente em seus desejos e excentricidades.

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