Tragédia na Suíça e Boate Kiss: Por que o ciclo de incêndios em baladas não para?
O início de 2026 traz um alerta sombrio vindo dos Alpes suíços. O incêndio no bar Le Constellation, ocorrido no primeiro dia do ano, já é considerado uma das piores tragédias da história recente da Suíça. Com ao menos 40 mortos e mais de cem feridos, o episódio reacende um debate doloroso sobre segurança em eventos de entretenimento.
A repercussão chegou rapidamente ao Brasil. O coletivo "Kiss: que não se repita", formado por sobreviventes e familiares das vítimas da tragédia de Santa Maria (RS), manifestou-se nas redes sociais com uma frase curta e impactante: "A história se repete". A declaração ecoa o sentimento de frustração diante de negligências que, mesmo após décadas, continuam a ceifar vidas em diferentes continentes.
O caso recente: Le Constellation, Suíça (2026)
- Embora as investigações oficiais ainda estejam em curso, relatos de sobreviventes apontam para uma causa comum em incidentes desse tipo: o uso de pirotecnia em ambientes fechados. Testemunhas descreveram que velas de aniversário presas a garrafas de champanhe foram erguidas durante a celebração, atingindo o teto de madeira.
- Imagens de vídeos promocionais do estabelecimento, gravadas meses antes, já mostravam a prática recorrente de funcionários carregando sinalizadores sobre a cabeça em meio ao público. O resultado foi uma propagação de chamas em questão de segundos, transformando o momento de festa em um cenário de horror.
Reflexos do passado: A tragédia da Boate Kiss (2013)
- A referência direta ao caso brasileiro não é por acaso. Em 27 de janeiro de 2013, o Brasil parou diante da morte de 242 pessoas em Santa Maria. O uso de um artefato pirotécnico por uma banda, somado ao revestimento de espuma altamente tóxica e à falta de saídas de emergência adequadas, criou uma armadilha mortal.
- Após anos de batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal manteve, em abril de 2025, as condenações dos sócios da boate e dos integrantes da banda, consolidando um marco jurídico para a responsabilidade civil e criminal em eventos no país.
Um ano crítico: A onda de incidentes em 2025
O ano de 2025 foi marcado por uma sucessão atípica de desastres em casas noturnas, evidenciando que a fiscalização global ainda falha em pontos cruciais:
- Boate Pulse, Macedônia do Norte: Em março de 2025, 63 pessoas perderam a vida durante um show de hip-hop. Sinalizadores disparados no palco atingiram o teto, sob os olhos de 1,5 mil espectadores.
- Jet Set, República Dominicana: Em abril de 2025, a negligência estrutural causou o desabamento do teto de uma das boates mais famosas de Santo Domingo. O acidente vitimou 232 pessoas, incluindo o artista Rubby Pérez. Mensagens recuperadas provaram que os donos sabiam do risco iminente de colapso, mas decidiram manter a agenda de shows.
- Birch By Romeo Lane, Índia: Em dezembro de 2025, uma explosão de cilindro de gás em uma boate de Goa matou 25 pessoas. Os proprietários tentaram fugir para a Tailândia, mas foram deportados para responder pelo crime.
O histórico de negligência na Europa e na Rússia
A recorrência desses episódios mostra que países com diferentes níveis de desenvolvimento compartilham falhas de segurança similares:
- Colectiv Club, Romênia (2015): 64 mortos. O incêndio, causado por fogos de artifício, gerou tamanha indignação popular que derrubou o governo da época. A investigação revelou que o local operava sem autorização para shows e estava superlotado.
- Lame Horse, Rússia (2009): 154 mortos. Novamente, a pirotecnia interna foi o gatilho. A maioria das vítimas sucumbiu à inalação de fumaça tóxica após faíscas incendiarem o teto decorativo.
- República Cromañón, Argentina (2004): 194 mortos. Um dos casos mais emblemáticos da América Latina. O local tinha capacidade para mil pessoas, mas abrigava quatro mil no momento do incêndio. O uso de fogos pela banda Callejeros resultou na prisão dos músicos e no impeachment do prefeito de Buenos Aires.
A necessidade de rigor e memória
- Os números e os relatos mostram um padrão perturbador. Da Argentina à Suíça, as causas das tragédias em casas noturnas raramente são acidentes imprevisíveis. Na maioria das vezes, são o resultado direto da combinação entre pirotecnia inadequada, materiais inflamáveis, superlotação e falhas estruturais conhecidas pelos gestores.
Manter viva a memória dessas vítimas, como faz o grupo de sobreviventes da Boate Kiss, é uma ferramenta essencial para pressionar por legislações mais rígidas e, principalmente, por uma fiscalização que não permita que a história de Santa Maria ou de Santo Domingo se repita continuamente.
