Quem inventou a "Fanta"? Como a Coca-Cola sobreviveu ao Nazismo criando um novo refrigerante - As origens sombrias da Fanta
A história da Fanta é um dos capítulos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, desconcertantes do mundo corporativo. O refrigerante que hoje é sinônimo de diversão e cores vibrantes nasceu de uma crise existencial profunda durante um dos períodos mais sombrios da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.
Embora o Brasil seja atualmente o maior mercado consumidor de Fanta no mundo, a origem da bebida remete a um cenário de escassez, embargos econômicos e à necessidade de sobrevivência de uma empresa em solo inimigo.
O dilema do xarope proibido
- Na década de 1930, a Coca-Cola já era um fenômeno na Alemanha: Sob o comando do executivo Max Keith, a subsidiária alemã operava a todo vapor. No entanto, com o ataque a Pearl Harbor em 1941 e a entrada oficial dos Estados Unidos na guerra, a relação comercial foi brutalmente interrompida.
- O bloqueio econômico impediu que o xarope secreto da Coca-Cola chegasse às fábricas alemãs: Sem a matéria-prima principal e com a Marinha Britânica bloqueando as rotas comerciais do Terceiro Reich, Max Keith viu-se diante de um impasse: ou a empresa fechava as portas, ou ele criava algo inteiramente novo com o que havia sobrado no país.
Uma receita feita de sobras
Diferente da versão cítrica e doce que conhecemos hoje, a Fanta original era um produto de "reciclagem" industrial. Keith desafiou seus químicos a criarem uma bebida utilizando apenas subprodutos de outras indústrias alimentícias, já que os ingredientes tradicionais estavam racionados.
A primeira fórmula da Fanta consistia basicamente em:
- Soro de leite: O líquido que sobrava da produção de queijos.
- Fibras de maçã: Resíduos provenientes da fabricação de sidra.
- Açúcar de beterraba: A principal fonte de doçura disponível na região.
O resultado era um líquido de coloração escura e sabor indefinido, muito distante da laranja: Curiosamente, devido à falta de açúcar nas casas alemãs, a Fanta era frequentemente usada como adoçante em receitas culinárias, sopas e sobremesas da época.
O batismo da "fantasia"
- O nome Fanta não foi fruto de uma agência de marketing moderna, mas de um concurso interno: Max Keith pediu aos seus funcionários que deixassem a "fantasia" (fantasie, em alemão) fluir para nomear o novo produto. Um vendedor, Joe Knipp, rapidamente sugeriu a abreviação: Fanta.
- O nome era curto, fácil de pronunciar: Estrategicamente, desvinculado de qualquer ideologia política direta, embora sua existência fosse inteiramente dependente do contexto do regime nazista.
O renascimento otaliano e a laranja
Com o fim da guerra em 1945, a produção da Fanta foi descontinuada pela Coca-Cola, que retomou o controle de sua filial alemã. A marca ficou "na geladeira" até 1955.
A reinvenção ocorreu na Itália: A Coca-Cola percebeu a necessidade de competir no crescente mercado de refrigerantes de frutas e decidiu usar ingredientes locais, as famosas laranjas italianas, para criar uma nova bebida. Em vez de registrar um novo nome, a companhia resgatou a marca Fanta, que já estava sob seu domínio jurídico. Foi nessa transição que a Fanta ganhou a identidade visual e o sabor que conquistariam o mundo.
Legado e pragmatismo empresarial
- A trajetória de Max Keith ainda gera debates éticos: Embora nunca tenha se filiado ao Partido Nazista, ele manteve a empresa operando sob as regras do regime para proteger os ativos da Coca-Cola. Para a matriz americana, ele foi visto como um herói corporativo que salvou a operação em tempos de guerra.
- Hoje, a Fanta é o segundo produto mais vendido da The Coca-Cola Company no Brasil, perdendo apenas para a própria Coca-Cola: No mercado brasileiro, a marca se diversificou em sabores como uva, guaraná e maracujá, consolidando-se como um pilar fundamental da cultura de consumo nacional.
A história da Fanta nos ensina que, mesmo nos momentos de maior restrição e conflito, a criatividade humana (e o pragmatismo empresarial) encontra formas de se manifestar. O que começou como um "refrigerante de sobras" em uma Alemanha sitiada, transformou-se em um ícone global de refrescância.
