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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026 às 10:26 GMT+0

A geração sanduíche na tecnologia: Como equilibrar inovação e conflito de gerações - De símbolo de status a "cringe"

No cenário hiperconectado de 2026, a Coreia do Sul tornou-se o epicentro de uma nova e curiosa tensão social. O que antes era uma busca saudável por vitalidade transformou-se em combustível para memes e críticas ácidas. Os millennials sul-coreanos, agora na casa dos 40 anos, encontram-se em um fogo cruzado: de um lado, o desejo de manter a relevância estética; do outro, o olhar implacável da Geração Z, que rotulou esse esforço como "Young-po-ja" — ou, em tradução livre, os "jovens de 40".

Este fenômeno vai além de simples roupas ou acessórios. Ele revela as profundas fissuras econômicas, sociais e tecnológicas que definem a sociedade coreana contemporânea e como o conceito de "envelhecer com dignidade" está sendo reescrito à força pela internet.

A caricatura do estilo: O streetwear sob julgamento

O iPhone 17 e a "onversão da cafonice"

Um dos indicadores mais fascinantes dessa mudança é o papel da tecnologia como símbolo de status. Historicamente, o iPhone era o emblema máximo da juventude descolada na Coreia do Sul, enquanto os modelos da Samsung eram associados ao mundo corporativo e aos mais velhos.

Entretanto, dados recentes do instituto Gallup mostram uma inversão surpreendente:

  • A adoção do iPhone 17 (lançado no final de 2025) disparou entre o público na casa dos 40 anos.
  • Em contrapartida, a Geração Z começou a migrar para outras estéticas ou marcas menos óbvias para se diferenciar.
  • O resultado? O iPhone, antes um passaporte para a "tribo jovem", passou a ser visto pelos mais novos como uma "farda" dos homens de meia-idade que buscam aprovação social, perdendo seu apelo de rebeldia original.

Ressentimento econômico por trás do deboche

  • A psicologia por trás dos memes não é apenas estética; é financeira. Especialistas apontam que a Geração Z sul-coreana enfrenta um mercado de trabalho saturado e preços imobiliários proibitivos. Para eles, os "jovens de 40" representam a última geração que conseguiu prosperar antes que as portas da mobilidade social se fechassem.
  • Dessa forma, zombar do tênis caro ou do estilo de vida desses millennials é uma forma de expressar descontentamento contra quem detém o poder aquisitivo. Eles não são vistos apenas como "cafonas", mas como símbolos de privilégio que ocupam espaços (físicos e digitais) que a juventude sente que deveria liderar.

Uma tendência global: O fim das fronteiras geracionais

Embora o termo "jovens de 40" seja específico da Coreia do Sul, o fenômeno é global e reflete uma mudança na forma como a humanidade envelhece no século 21.

  • A estética agnóstica à idade: Graças ao algoritmo das redes sociais, uma pessoa de 15 anos e uma de 45 consomem as mesmas referências visuais simultaneamente. Isso cria um "achatamento" cultural onde não existem mais modas exclusivas para cada faixa etária.
  • O "cringe" transversal: No Brasil e nos EUA, o termo cringe já foi usado para descrever o gosto dos millennials por Harry Potter ou café. Agora, a crítica evoluiu para o estilo de vida "ageless" (sem idade), onde adultos de 40 anos frequentam os mesmos festivais de música e usam as mesmas gírias que os adolescentes.
  • A economia da nostalgia: Marcas globais como Nike e Adidas focam seus relançamentos no poder de compra dos quarentões que querem reviver os anos 90 e 2000, gerando um conflito direto com os jovens que estão descobrindo essas estéticas agora pela primeira vez.

A geração sanduíche: Presa entre o rígido e o questionador

  • No ambiente corporativo, os millennials de 40 anos vivem um isolamento social único. Eles foram educados sob o sistema kkondae (o respeito cego e rígido à hierarquia dos mais velhos), mas agora gerenciam uma geração (Z e Alpha) que prioriza o equilíbrio entre vida e trabalho e questiona ordens diretas.
  • O medo de ser rotulado como um líder autoritário ou, pior, como um "jovem de 40" desesperado por aceitação, faz com que muitos se retirem das interações sociais. É o retrato de uma geração que sente que não pertence totalmente a lugar nenhum: velhos demais para a vanguarda e jovens demais para o conservadorismo tradicional.

Mais que uma piada, um sintoma social

  • O fenômeno dos "jovens de 40" na Coreia do Sul é um lembrete de que a moda é, essencialmente, um campo de batalha por identidade. Enquanto os millennials buscam recuperar o tempo perdido ou expressar sua vitalidade através do consumo, a Geração Z utiliza o deboche como ferramenta para demarcar seu próprio território cultural.

"É a suprema ironia de nossa era digital: uma geração que eleva a bandeira da inclusão, da diversidade e do respeito à identidade alheia como pilares absolutos de seu discurso, encontra nas redes sociais e no humor ácido as ferramentas preferenciais para um novo tipo de perseguição. Vestem a máscara da justiça progressista, mas alimentam uma cultura do deboche seletivo, onde memes, inteligência artificial e pilhas de likes são armas de humilhação massiva. Ridicularizam não por ideologia, mas por idade; não por ações, mas por estilos de vida; não por ofensas reais, mas por simples diferença geracional. Este paradoxo revela um vício profundo: a busca por validação virtual e a construção de uma hierarquia de 'cool' baseada no cancelamento do outro, muitas vezes disfarçada de brincadeira. Assim, enquanto pregam um mundo sem rótulos, tornam-se mestres em criar novos—e usam o escudo do 'humor' para que a crueldade pareça apenas mais uma tendência do feed. É a intolerância travestida de trend; o bullying, requentado no forno dos algoritmos."

No fim, o desejo de parecer jovem é uma característica humana universal. A diferença em 2026 é que, com a onipresença da inteligência artificial e das redes sociais, ninguém envelhece em paz; cada escolha de guarda-roupa é um post, e cada post é um alvo potencial para a próxima onda de memes geracionais.

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