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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026 às 11:11 GMT+0
"Só vale se o animal sofrer muito": O aliciamento em jogos e vídeos simples e as lives de horror extremo no Discord - Crueldade por status virtual
Este resumo detalha a atuação de grupos digitais dedicados ao zoossadismo e à violência extrema, expondo como a falta de vigilância digital e a busca por "status" em comunidades fechadas alimentam crimes brutais contra animais e jovens.
O despertar da crueldade: O submundo das madrugadas digitais
- Enquanto o país repousa, uma guerra invisível acontece nas telas de computadores e celulares. A delegada Lisandrea Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, monitora um ecossistema onde a tortura de cães e gatos é transmitida ao vivo. O que começou como uma investigação sobre ataques a escolas em 2023 revelou uma rede profunda de sadismo, onde o sofrimento animal é a principal moeda de troca para ascensão em hierarquias virtuais.
- A brutalidade não é aleatória; ela é performática: Criminosos utilizam o sangue das vítimas para assinar seus nomes, buscando reconhecimento dentro de "panelas", grupos restritos que operam sob uma lógica de desumanização total.
Os pilares da violência online
A escalada do zoossadismo no Brasil e no mundo sustenta-se em três eixos principais que facilitam a proliferação desses crimes:
1. A busca por status virtual:
- O principal motivador não é financeiro, mas a busca por fama e autoridade dentro de grupos extremistas. Quanto maior a perversidade e o tempo de sofrimento da vítima, maior o respeito angariado pelo agressor.
2. O processo de dessensibilização:
- Jovens expostos continuamente a conteúdos violentos perdem a repulsa natural à dor alheia. Segundo a juíza Vanessa Cavalieri, essa exposição rotineira transforma o horror em entretenimento, levando o espectador a se tornar, eventualmente, um autor de atos atrozes.
3. O uso de plataformas de superfície:
- Diferente do que se imagina, esses crimes não estão escondidos na "dark web". Eles ocorrem em plataformas populares, como o Discord, e o aliciamento começa de forma sutil em jogos como Roblox e Minecraft, ou através de vídeos de "brainrot" em redes sociais como TikTok e Instagram.
O desafio da investigação e a falta de cooperação
- O trabalho do Noad é exaustivo e emocionalmente desgastante: Investigadores precisam se infiltrar nesses grupos e assistir a horas de abuso para coletar provas e identificar os autores. A delegada Salvariego aponta que a cooperação das grandes plataformas ainda é limitada e lenta, dificultada pela ausência de legislações brasileiras que obriguem o fornecimento imediato de dados em casos de emergência.
- Apesar das barreiras, os resultados são expressivos: Desde a criação do núcleo, mais de mil animais foram resgatados de situações de tortura, e centenas de adolescentes foram retirados de "arenas virtuais" de automutilação e abuso.
Uma rede internacional de sadismo lucrativo
- O problema ultrapassa as fronteiras brasileiras: Investigações internacionais revelaram que, em países como a China e o Reino Unido, a tortura de filhotes de gatos tornou-se um negócio lucrativo. Vídeos são vendidos e compartilhados em grupos globais, onde a execução de um animal é documentada a cada 14 horas, em média. No Brasil, embora o lucro ainda não seja o motor principal, o padrão de comportamento e as técnicas de tortura mimetizam essas redes globais.
A prevenção começa no letramento digital
- A violência digital contra animais é um sintoma de uma geração que cresce sem supervisão em um ambiente altamente radicalizado. A conclusão das autoridades é direta: o controle parental é a ferramenta mais eficaz de interrupção imediata. O simples ato de recolher dispositivos eletrônicos durante a madrugada poderia cessar a maioria dos crimes monitorados, que atingem seu pico de audiência entre 23h e 3h.
O combate ao zoossadismo exige mais do que apenas punição; requer um esforço conjunto de letramento digital para pais e uma regulamentação mais rígida das plataformas, garantindo que o anonimato não sirva de escudo para a perversidade.
