O Agente Secreto: O que é real e o que é mito na aparição da Perna Cabeluda? O uso de lendas urbanas para driblar a censura militar no Recife
A lenda da Perna Cabeluda, que por décadas habitou o imaginário popular do Recife, deixou de ser apenas uma história de "assombração" para se tornar um fenômeno cultural global. Com a consagração do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho encedor do Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, a lenda ganhou novas camadas de interpretação.
Muito além do elemento fantástico, a aparição desse membro solitário e agressivo nos jornais e nas ruas durante a década de 1970 serviu como um espelho distorcido da repressão militar. Em um período de silenciamento forçado, o absurdo tornou-se a única linguagem possível para narrar a violência institucionalizada.
A imprensa e o vazio da censura
- Na década de 1970, a presença de censores dentro das redações impedia que os jornais relatassem os verdadeiros problemas sociais, como prisões políticas e desaparecimentos. Para manter as vendas e preencher o espaço deixado pelas notícias proibidas, a imprensa pernambucana, liderada por figuras como o escritor Raimundo Carrero no Diario de Pernambuco, deu vida a narrativas surreais.
- A Perna Cabeluda, que "nasceu" oficialmente em dezembro de 1975, ocupou esse vácuo. Histórias de violência real, que não podiam ser atribuídas ao Estado, eram transmutadas em contos de uma perna fantasmagórica que chutava transeuntes, permitindo que o clima de medo fosse registrado, ainda que sob o manto do folclore.
Uma "polícia moral" nos arbustos do Recife
- Em O Agente Secreto, o diretor utiliza a lenda para ilustrar o controle sobre os corpos. A Perna Cabeluda não atacava qualquer pessoa; ela frequentemente "assombrava" grupos marginalizados pela moral vigente, como homens homossexuais que frequentavam o Parque 13 de Maio ou mulheres desacompanhadas.
- Nesse contexto, a lenda funcionava como uma extensão da repressão moral da ditadura. O medo de levar uma "rasteira" da perna era, na verdade, o medo da violência policial e do julgamento social. O mito servia para disciplinar o comportamento público através do terror psicológico.
Recife como epicentro da repressão
- Embora o eixo Rio-São Paulo concentre grande parte dos registros históricos da ditadura, Pernambuco foi um dos estados que mais sofreu com a violência oficial. Sede do Quarto Exército, o Recife era um centro de operações para todo o Nordeste, combatendo movimentos como as Ligas Camponesas e vigiando figuras como Dom Helder Câmara.
- A "Perna" personificava essa violência arbitrária. Enquanto o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) agia nas sombras e nos porões, a Perna Cabeluda agia à luz do dia nas páginas dos jornais, simbolizando uma estrutura de segurança pública que já era, por natureza, repressiva e conectada ao crime organizado e ao coronelismo local.
O legado cultural: Do medo à "grea"
- Com o passar do tempo, a sociedade processou o trauma. O que antes causava pânico real a ponto de influenciar o comportamento dos moradores por cerca de dois anos transformou-se em "grea" (brincadeira). A Perna Cabeluda evoluiu para um ícone do Carnaval, virou tema de frevo e foi imortalizada pelo movimento Manguebeat de Chico Science.
- Essa transição demonstra a resiliência cultural do Recife, que utiliza o humor e o sobrenatural para digerir dores coletivas. O filme de Mendonça Filho resgata essa trajetória, mostrando que, às vezes, é preciso olhar para o fantástico para compreender as verdades mais cruas da nossa história.
A Perna Cabeluda em O Agente Secreto é mais do que um alívio cômico ou um toque de realismo mágico; é um documento histórico sobre a sobrevivência da narrativa em tempos de opressão. Ela representa a dor sublimada de uma sociedade que, impedida de denunciar seus algozes de farda, criou um monstro de um membro só para explicar as rasteiras que a vida política lhe dava. Ao completar 50 anos de sua primeira aparição, a lenda agora serve como um lembrete global de que a memória, mesmo quando fantástica, é uma ferramenta de resistência.
