A fraude dos microapartamentos: Por que o "Minha Casa Minha Vida" não está chegando a quem precisa
O cenário imobiliário de São Paulo enfrenta um paradoxo: enquanto a cidade vive um recorde de lançamentos de unidades classificadas como "populares", o déficit habitacional continua a crescer. O incentivo público, que inclui isenções fiscais para construtoras e juros subsidiados para compradores, tem atraído investidores em vez de famílias. O resultado é a transformação de bairros centrais em polos de hospedagem temporária, utilizando recursos federais e municipais para fins lucrativos privados.
O desvio de finalidade nos bairros centrais
Embora o Minha Casa, Minha Vida tenha sido historicamente associado à periferia, a flexibilização das regras e os incentivos municipais trouxeram o programa para o centro de São Paulo. Contudo, em diversos empreendimentos, estima-se que até 50% das unidades não sirvam como moradia, mas operem exclusivamente como "quartos de hotel" no Airbnb.
A brecha legal entre as faixas de renda
Uma das principais causas dessa distorção é a diferença regulatória no programa federal:
- Faixa 1 (Baixa renda): Possui regras rígidas que proíbem a venda ou locação do imóvel, sob pena de perda da unidade.
- Faixas superiores (Até R$ 12 mil): O Ministério das Cidades admite que não há restrições explícitas contra a locação temporária nessas categorias. Isso permite que investidores usem o crédito subsidiado para adquirir imóveis e lucrar com a diferença entre a parcela do financiamento e o valor da diária turística.
O "boom" dos microapartamentos
A produção em massa de estúdios com menos de 35 metros quadrados é apontada como um facilitador do problema. Essas unidades são inadequadas para a composição média das famílias brasileiras (2,8 pessoas), mas são ideais para o perfil de usuários de plataformas de aluguel curta temporada, o que acaba por expulsar o público-alvo original dos programas sociais.
Estratégias para burlar a fiscalização
A investigação revelou táticas para contornar as regras de moradia popular:
- Uso de terceiros: A prática de registrar o imóvel no CPF de familiares que se enquadram na faixa de renda, transferindo a propriedade para o investidor real após a entrega das chaves.
- Investimento em lote: O Ministério Público identificou casos de um único comprador adquirindo até 25 unidades classificadas como Habitação de Interesse Social (HIS).
A reação do poder público
- Desde maio de 2025, um decreto municipal em São Paulo proíbe explicitamente que unidades HIS e HMP (Habitação de Mercado Popular) sejam destinadas ao aluguel de curta temporada. A prefeitura já aplicou multas que somam R$ 39 milhões e monitora cerca de 90 mil moradias, enquanto o Ministério Público investiga milhares de possíveis fraudes em compras realizadas em 2025.
A utilização de subsídios habitacionais para alimentar o mercado de hospedagem temporária revela uma falha estrutural na gestão urbana de São Paulo. Embora as construtoras e plataformas aleguem seguir a lei, a omissão nos regulamentos federais e a falta de fiscalização eficaz na ponta da venda subvertem o objetivo social dos programas. Enquanto o crédito público for utilizado para gerar lucro imobiliário em vez de moradia digna, a expansão das construções "populares" não terá impacto real na redução do déficit habitacional da metrópole.
