Fim da Escala 6x1: O impacto real na economia - Por que o movimento VAT afirma que o empresariado está criando pânico econômico?
O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil atingiu um ponto de inflexão no início de 2026. Com a promessa do presidente da Câmara, Hugo Motta, de priorizar o fim da escala 6x1, modelo em que se trabalha seis dias para apenas um de descanso, o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) viu anos de mobilização digital se transformarem em força política real.
No centro dessa tempestade está Rick Azevedo (PSOL). Ex-balconista de farmácia que viralizou no TikTok, Azevedo converteu sua indignação em quase 3 milhões de assinaturas e um mandato como o vereador mais votado de seu partido no Rio de Janeiro. Agora, ele encara o lobby empresarial e a resistência parlamentar para aprovar o que chama de "a proposta trabalhista mais importante deste século".
O confronto de narrativas: "Pânico econômico" vs. Direitos humanos
Um dos pontos centrais da entrevista é a resposta de Azevedo às críticas de economistas e setores do empresariado. Os críticos alegam que a redução da jornada prejudicaria a produtividade e a sobrevivência de pequenas empresas.
- Paralelo histórico: Azevedo argumenta que o discurso de "quebra da economia" é cíclico. Ele recorda que as mesmas previsões catastróficas foram feitas contra a abolição da escravidão, a implementação do 13º salário, as férias remuneradas e a licença-maternidade.
- O "roteiro falido": Para o fundador do VAT, o empresariado utiliza o medo para manter um modelo de exploração que ele classifica como herança direta da "senzala".
- Bem-estar e consumo: Ele aponta que trabalhadores com mais tempo livre tendem a ser mais produtivos e a consumir mais, estimulando a economia de forma orgânica, como observado em modelos europeus.
"Eles querem causar esse pânico econômico para continuar sugando o trabalhador seis dias na semana por um salário que muitas vezes não dá nem para comer."
A resistência no Congresso e a "pressão popular"
Apesar do apoio de 72% da população (segundo dados da Genial/Quaest de dezembro de 2025), a proposta enfrenta um muro no Legislativo: apenas 42% dos deputados se declaram favoráveis.
- A composição da Câmara: Azevedo critica a forte presença de lobistas e herdeiros de elites agrárias no Congresso, o que explica a resistência a pautas trabalhistas.
- Voto por pressão: A estratégia do movimento para este semestre é "expor o rosto" de quem votar contra. Rick acredita que, embora muitos parlamentares defendam interesses empresariais, eles não podem ignorar o desejo do eleitor em ano de eleição.
- O papel do Governo: O apoio do governo federal é visto como uma reação direta à mobilização das ruas. Azevedo avalia que a gestão atual se sente segura para enfrentar o lobby quando percebe que a classe trabalhadora está unida.
Viabilidade para pequenos e médios empresários
Reconhecendo que pequenas e médias empresas respondem por 80% dos empregos formais, Rick Azevedo detalha que a proposta não ignora a realidade técnica desses negócios:
- Grupos de estudo: Estão sendo estruturados grupos de trabalho no Congresso para criar um plano concreto de transição.
- Isenção fiscal: Uma das soluções propostas é a compensação através da isenção de impostos para micro e pequenos empreendedores, garantindo que a redução da jornada não se transforme em falência.
O fenômeno das redes e a "geração CLT"
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Azevedo analisa a aversão de parte da Geração Z ao modelo de trabalho tradicional. Ele rebate a ideia de que os jovens "não querem trabalhar", afirmando que o que eles rejeitam é o modelo falido de 44 horas semanais sob condições precárias.
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Sobre o sucesso da direita nas redes sociais, ele acredita que a esquerda está aprendendo a dinâmica, mas com uma diferença fundamental: a responsabilidade com a verdade. Ele defende que pautas "identitárias" e pautas trabalhistas são indissociáveis, já que grupos vulneráveis (negros, LGBTQIA+) são justamente os que ocupam as vagas mais exaustivas da escala 6x1.
Um semestre decisivo
- O fim da escala 6x1 deixou de ser um desabafo em uma rede social para se tornar o epicentro do debate político brasileiro em 2026. A confiança de Rick Azevedo na aprovação ainda no primeiro semestre reflete um amadurecimento da pauta, que hoje parece mais próxima de um desfecho do que a própria tarifa zero nos transportes.
Seja como vereador ou como um possível candidato a deputado federal, Azevedo sinaliza que a luta pela "vida além do trabalho" não é apenas uma reforma técnica, mas uma mudança de paradigma sobre o valor do tempo humano no Brasil contemporâneo.
