Herançocracia: Desigualdade econômica e herança - Como o “banco da mamãe e do papai” redefine o sucesso financeiro
Durante décadas, a fórmula parecia clara: estudar, trabalhar, crescer na carreira e, com o salário, conquistar estabilidade e patrimônio. Esse modelo funcionou especialmente no pós-guerra, quando crescimento econômico, crédito acessível e imóveis mais baratos favoreceram a ascensão social.
Do salário aos ativos: A inversão econômica
O ciclo tradicional: Educação, emprego, renda, imóvel, riqueza, perdeu força.
Atualmente:
- Salários crescem menos que o custo da moradia.
- Diplomas não garantem estabilidade.
- Ativos financeiros e imobiliários se valorizam acima da renda média.
Quem já possui patrimônio amplia riqueza. Quem depende apenas do salário encontra barreiras mais altas para começar.
A crise da meritocracia
- A expansão do ensino superior reduziu o diferencial do diploma, enquanto o endividamento estudantil cresceu e o mercado de trabalho se tornou mais instável.
- Ao mesmo tempo, o retorno sobre ativos superou o retorno do trabalho. A promessa de que esforço e qualificação bastam para prosperar tornou-se menos previsível.
O “banco da família” como nova engrenagem econômica
Com moradia, educação e custo de vida mais caros, a família virou uma espécie de instituição financeira informal:
- Ajuda na entrada do imóvel.
- Moradia prolongada.
- Apoio em despesas essenciais.
- Antecipação de herança.
Isso reduz riscos para quem recebe ajuda, mas amplia desigualdades entre quem tem e quem não tem suporte patrimonial.
Concentração de riqueza e mobilidade reduzida
Grande parte do patrimônio está concentrada nas gerações mais velhas. Assim:
- Jovens dependem de transferências para acessar ativos.
- A riqueza circula nos mesmos grupos.
- A mobilidade social desacelera.
Quando o crescimento econômico depende mais da valorização de ativos do que da produtividade, a economia tende a reforçar desigualdades estruturais.
Impactos nas decisões e no mercado
A herançocracia influencia escolhas pessoais e econômicas:
- Estabilidade patrimonial pesa nas relações.
- Jovens adiam independência.
- A classe média sustenta filhos e pais ao mesmo tempo.
Isso afeta consumo, poupança e formação de famílias, com reflexos no crescimento de longo prazo.
O desafio estrutural
- A herançocracia não elimina o mérito, mas reduz o poder do trabalho como motor de ascensão. Quando o patrimônio de origem pesa mais que a renda conquistada, a desigualdade tende a se perpetuar e a confiança na mobilidade social enfraquece.
O debate é econômico: trata-se de entender se o sistema continuará premiando principalmente quem já possui ativos ou se será capaz de reequilibrar a relação entre trabalho, produtividade e acesso à riqueza.
