Políticas públicas de educação: Ensino médio técnico no Brasil - Profissionalização real ou atalho para a universidade?
Em janeiro de 2026, o Brasil vive um momento de rara convergência política em torno da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Governos de diferentes espectros ideológicos adotaram a expansão do ensino técnico como peça central de seus planos de desenvolvimento. A justificativa é econômica: em um cenário global de reindustrialização e transição energética, a qualificação da mão de obra jovem tornou-se uma questão de soberania nacional e crescimento do PIB.
No entanto, a eficácia desse investimento bilionário depende da solução de um paradoxo: Enquanto o Estado investe para formar operários e técnicos especializados, a maioria dos jovens utiliza essas instituições de excelência como um trampolim para o ensino superior.
O mapa dos investimentos: O bilhão em educação
- A escala dos recursos mobilizados para 2026 é sem precedentes. No plano federal, o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) destinou
R$ 3,9 bilhõesespecificamente para a expansão e reestruturação da Rede Federal de Educação Profissional. O objetivo é criar 140 mil novas vagas e alinhar o país à meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de triplicar as matrículas técnicas, buscando atingir a média dos países da OCDE. - No estado de São Paulo, o orçamento aprovado para 2026, de
R$ 382,3 bilhões, reserva uma fatia robusta para a expansão de vagas em cursos integrados. A meta estadual de ter mais de 321 mil jovens em formação técnica reflete a estratégia de vincular o ensino médio às demandas das cadeias produtivas locais, especialmente nos setores de tecnologia e agronegócio.
O retorno econômico: Salários e crescimento do PIB
- Dados de instituições como o Ipea e a Fundação Itaú Educação e Trabalho revelam que o investimento no ensino técnico não é apenas uma despesa social, mas um ativo financeiro. No nível individual, um jovem formado no ensino técnico ganha, em média, 32% a mais do que aquele que possui apenas o ensino médio regular.
- Do ponto de vista macroeconômico, o impacto é ainda mais expressivo. Projeções indicam que se o Brasil triplicar o acesso ao ensino técnico público de qualidade, o PIB nacional poderia crescer até 2,32% no longo prazo. Esse aumento na produtividade é o que o setor industrial brasileiro busca desesperadamente para se manter competitivo frente a mercados emergentes.
O gargalo da produtividade e a demanda da indústria
- Apesar do esforço governamental, existe um descompasso entre a formação e o mercado. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial da CNI, o Brasil precisará qualificar ou requalificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027. Somente para o setor industrial, a demanda por novos técnicos crescerá 4,4% nos próximos dois anos.
- O problema central é que os Institutos Federais e escolas técnicas estaduais tornaram-se "ilhas de excelência" acadêmica. Com infraestrutura superior e professores altamente qualificados, essas escolas preparam os alunos tão bem que eles acabam conquistando as vagas mais disputadas nas universidades públicas. Economicamente, isso gera um debate sobre a "eficiência do gasto": o Estado está pagando caro por uma formação técnica que não chega ao chão de fábrica, pois o egresso prefere seguir para a engenharia ou medicina.
A ineficiência dos "dados cegos"
- Um dos maiores obstáculos para a gestão econômica da educação no Brasil é a falta de rastreabilidade. Atualmente, o país não possui um sistema nacional de acompanhamento de egressos. Sem dados que mostrem onde o aluno está cinco ou dez anos após a formatura, as decisões políticas de expansão são tomadas sem evidências concretas de retorno.
- Não sabemos, por exemplo, se a baixa inserção técnica se deve à falta de vagas nas empresas locais ou se a diferença salarial entre um técnico e um graduado é tão gritante que inviabiliza a permanência no nível médio. A ausência dessas informações impede o ajuste fino do currículo às necessidades reais da economia de 2026.
Excelência reconhecida, rumo a definir
- A expansão do Ensino Médio Técnico Integrado é, sem dúvida, um dos movimentos mais acertados da política pública brasileira recente, unindo qualidade pedagógica e potencial de mobilidade social. Contudo, para que esses bilhões de reais se traduzam em desenvolvimento real, é necessário que o Estado encare o ensino técnico como parte de uma estratégia econômica integrada, e não apenas como uma métrica de matrículas.
O sucesso dessa política em 2026 não deve ser medido apenas pela quantidade de diplomas entregues, mas pela capacidade de conectar o talento dos jovens às necessidades produtivas do país. Sem transparência de dados e um sistema de acompanhamento rigoroso, corremos o risco de financiar uma excelência que, embora louvável, não resolve o apagão de mão de obra que trava o crescimento brasileiro.
