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sábado, 17 de janeiro de 2026 às 10:00 GMT+0

O brasileiro e o chope "estupidamente gelado"? O segredo do "borogodó" - Como o chope trocou a elegância europeia pela malandragem carioca

O chope é mais do que uma bebida para o brasileiro; é um catalisador social. Seja mencionado em peças teatrais do século 19 ou em clássicos do rock nacional dos anos 80, o termo evoca a mesma imagem: a cerveja não pasteurizada, tirada sob pressão e servida com o frescor do momento. Embora tenha raízes europeias, a bebida ganhou no Brasil uma identidade própria, marcada pela descontração e pela exigência de ser servida "estupidamente gelada".

A chegada com a Corte e o berço na Serra Fluminense

  • A história começa em 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro. Dom João VI foi o responsável por incentivar as primeiras cervejarias no Brasil, mas o clima tropical da capital era um desafio técnico para a fermentação. A solução foi subir a serra: o ambiente mais ameno da região serrana fluminense permitiu o controle necessário para a produção. Naquela época, não havia distinção entre cerveja e chope; toda cerveja era, por definição, "viva" e não pasteurizada.

Etimologia: De recipiente a patrimônio líquido

  • O nome "chope" tem origem no termo alemão Schoppen, que se refere a uma unidade de medida ou ao próprio copo. Curiosamente, em países como Alemanha e França, a palavra enfatiza o vasilhame (a caneca) e pode ser usada até para vinho. No Brasil, o termo passou por uma "metamorfose cultural", deixando de ser o nome do copo para batizar exclusivamente a cerveja fresca servida sob pressão.

O papel dos imigrantes e a superação de crises

  • Se a nobreza trouxe o hábito, foram os imigrantes alemães que consolidaram a indústria a partir de 1824. No entanto, produzir chope em solo brasileiro era um desafio de luxo. A dependência de insumos europeus, como o lúpulo, tornava o produto caro. Tentativas de substituir o lúpulo por ervas nativas fracassaram, e a produção nacional chegou a ser ameaçada durante a Primeira Guerra Mundial devido à interrupção das importações. Foi apenas com a urbanização e o barateamento dos processos no século 20 que a bebida se popularizou.

A experiência sensorial: Por que o chope é diferente?

Especialistas apontam que a grande vantagem do chope é ser uma "cerveja viva". Por não passar pelo processo de pasteurização que utiliza calor para eliminar microrganismos e aumentar a validade, o chope preserva nuances de sabor que a cerveja engarrafada perde.

Por outro lado, o hábito brasileiro de beber o líquido quase congelado é uma faca de dois gumes:

  • O lado bom: Garante o frescor indispensável para o clima tropical.
  • O lado técnico: A temperatura excessivamente baixa causa vasoconstrição na língua e mantém os aromas "presos" no líquido, diminuindo a percepção sensorial completa se comparado ao consumo em temperatura ambiente, como ocorre na Europa.

O ícone carioca e a cultura de botequim

  • Embora seja apreciado de Norte a Sul com redutos históricos como o Bar Brahma em São Paulo e os botecos da Savassi em Belo Horizonte, foi no Rio de Janeiro que o chope se tornou um estilo de vida. Estabelecimentos como o Bar Amarelinho, na Cinelândia, operam desde 1921 com serpentinas de cobre que garantem o "colarinho cremoso" amado por políticos e artistas.
  • O chope se consolidou como a "bebida da democracia", acompanhando desde o filé mignon até o aipim frito, servindo de trilha sonora para conversas sobre futebol, política e paquera.

O chope na cultura pop: O efeito Blitz

  • Nos anos 80, a banda Blitz imortalizou a bebida no rock Você não soube me amar. A letra, que descreve o cotidiano underground do Rio, transformou o "chope com batata frita" no símbolo do encontro simples e autêntico. Para uma geração que buscava novos modos de vida, o chope era a opção acessível e social, reforçando sua posição como o combustível oficial da boemia brasileira.

A trajetória do chope no Brasil é uma crônica de adaptação. De um item de luxo da corte portuguesa a um pilar da cultura popular, a bebida sobreviveu a guerras, crises econômicas e pandemias. Hoje, o Brasil é o terceiro maior mercado de cerveja do mundo, e o chope permanece como a versão mais celebrada dessa indústria: um produto que, apesar da origem europeia, só atingiu sua plenitude quando encontrou o gelo e o espírito descontraído dos balcões brasileiros.

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