Por que "O Morro dos Ventos Uivantes" virou o filme mais polêmico de 2026 antes mesmo da estreia? Entenda a polêmica que dividiu a internet
Em geral, o rótulo de “filme mais controverso do ano” costuma recair sobre thrillers políticos incendiários ou produções de terror dispostas a romper tabus. Em 2026, porém, o centro das atenções é uma adaptação de um romance publicado no século 19. A nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell, chega aos cinemas brasileiros em 12 de fevereiro cercada por críticas, debates acalorados e uma curiosidade quase febril. Antes mesmo da estreia, o filme já divide opiniões e provoca reações intensas em sua maioria negativas entre críticos e fãs da obra de Emily Brontë.
Uma diretora conhecida por provocar
- Desde o anúncio de que Emerald Fennell adaptaria o clássico vitoriano, a reação foi imediata: A cineasta, vencedora do Oscar de roteiro por Bela Vingança e diretora do polêmico Saltburn, construiu sua carreira com obras marcadas por exagero estético, sátira mordaz e sexualidade explícita. Para muitos comentaristas, esse estilo parecia incompatível com a densidade emocional e o tom sombrio do romance de Brontë.
- Cinco meses antes da estreia, críticas já classificavam o projeto como um exercício de vaidade artística: O ceticismo não se limitava à qualidade do filme, mas ao temor de que a diretora reduzisse um clássico literário a um espetáculo visual provocativo, esvaziado de nuance.
Elenco, idade e representação: O primeiro foco de tensão
- A confirmação de Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis de Cathy e Heathcliff intensificou a controvérsia: No romance, grande parte da história acompanha os personagens ainda adolescentes, enquanto os atores têm 35 e 28 anos, respectivamente. A escolha foi vista como um distanciamento significativo do texto original.
- A caracterização também gerou desconforto: Robbie manteve a imagem loira e polida associada a seus papéis recentes, distante da Cathy descrita por Brontë. Já a escalação de Elordi reacendeu um debate antigo: Heathcliff é descrito no livro como alguém de pele escura, possivelmente não branco, condição que ajuda a explicar seu isolamento e a violência que sofre. Para parte do público, a escolha do ator representaria um apagamento desse aspecto central da obra.
- Defensores do filme lembram que adaptações anteriores também tomaram liberdades semelhantes: Ainda assim, o contexto cultural mudou: hoje, o público demonstra maior sensibilidade a questões de representatividade e fidelidade simbólica.
Um retrocesso em relação a adaptações recentes
- As comparações com versões anteriores não ajudaram Fennell: A adaptação de 2011, dirigida por Andrea Arnold, escalou o ator negro James Howson como Heathcliff e uma atriz jovem para Cathy, decisões vistas por muitos como mais alinhadas ao espírito do romance. Diante disso, o novo filme passou a ser encarado como um retorno a escolhas semelhantes às do longa de 1939, frequentemente criticado por suavizar conflitos e personagens.
Testes de exibição e um trailer incendiário
- A controvérsia ganhou novo fôlego após sessões-teste realizadas em 2025: Relatos apontavam uma narrativa sem sutileza emocional e repleta de choques calculados. Pouco depois, o trailer confirmou os temores de parte do público: erotismo explícito, montagem sensual e uma abordagem deliberadamente moderna.
- Cenas sugestivas, trilha sonora anacrônica e imagens provocativas dominaram o material promocional: Para críticos, Fennell parecia menos interessada em reinterpretar o romance do que em enquadrá-lo dentro de sua própria marca autoral.
Anacronismo como escolha estética ou erro?
- Além do tom sexualizado, o filme foi acusado de romper com a ambientação histórica: O uso de música pop contemporânea e figurinos considerados deslocados no tempo, como um vestido de noiva associado à estética dos anos 1980, alimentou a percepção de que a diretora priorizou impacto visual em detrimento da coerência histórica.
- Trechos divulgados recentemente: Renderam ironias nas redes sociais, com comentários sobre dentes excessivamente perfeitos e comportamentos que soariam modernos demais para o início do século 19.
Por que isso incomoda tanto?
A pergunta central permanece: por que tamanha irritação? Afinal, o cinema está repleto de releituras livres de clássicos, de Jane Austen a Shakespeare. A resposta passa por dois fatores principais.
- O primeiro é a relação de Emerald Fennell com o universo aristocrático: Filha de uma família privilegiada, ela foi frequentemente acusada de retratar a elite com complacência. Em Saltburn, essa proximidade foi vista por críticos como um obstáculo à crítica social mais contundente. Muitos temem que o mesmo aconteça agora, suavizando as tensões de classe que atravessam O Morro dos Ventos Uivantes.
- O segundo fator é ainda mais poderoso: A devoção dos leitores. Para muitos, o romance de Emily Brontë não é apenas um livro marcante da adolescência, mas um elemento formador de identidade. Qualquer desvio do texto original é sentido como uma afronta pessoal.
Amor obsessivo por um clássico intocável
- A intensidade da reação revela o lugar singular que O Morro dos Ventos Uivantes ocupa no imaginário coletivo: Leitores apaixonados projetam suas próprias experiências emocionais na obra, o que torna quase impossível aceitar mudanças sem resistência.
- Curiosamente, a própria Fennell se declara uma fã obsessiva do romance desde a juventude: Em eventos recentes, afirmou que ficaria furiosa se outra pessoa adaptasse o livro. Essa devoção, paradoxalmente, não a impediu de assumir riscos que desafiam expectativas.
Entre a rejeição e a curiosidade
Apesar da avalanche de críticas, as primeiras reações após exibições antecipadas foram surpreendentemente positivas em alguns círculos, chegando a classificar o filme como um novo clássico.Até críticos inicialmente céticos passaram a relativizar a importância da fidelidade absoluta ao texto.A controvérsia, longe de prejudicar o filme, ampliou sua visibilidade.Cada novo detalhe divulgado reacende o debate e alimenta a expectativa.
O Morro dos Ventos Uivantes, na versão de Emerald Fennell, tornou-se controverso não apenas por suas escolhas estéticas ou de elenco, mas porque toca em algo mais profundo: a relação emocional e quase sagrada que muitos mantêm com o romance de Emily Brontë. Ao desafiar essa devoção, o filme provoca rejeição e fascínio em igual medida. Resta saber se, quando as luzes do cinema se apagarem, a obra confirmará os piores temores de seus críticos — ou se transformará a polêmica em consagração. Uma coisa é certa: dificilmente passará despercebida.
