Guerra no Irã provoca racha nos Brics e expõe divisão entre Brasil, China, Rússia e Índia
A escalada militar envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, seguida por retaliações iranianas no Golfo, provocou um racha diplomático dentro dos Brics. O bloco, que ampliou sua composição nos últimos anos e passou a incluir países do Oriente Médio, demonstrou dificuldade em formular uma posição comum diante de um conflito que atinge diretamente alguns de seus próprios membros. O episódio revela limites estruturais do grupo e aprofunda divergências geopolíticas já existentes.
O que desencadeou a crise
A atual fase do conflitocomeçou com ataques aéreos conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos, incluindo instalações estratégicas e prédios oficiais. Entre as vítimas estaria o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, segundo confirmação da mídia estatal do Irã.Washington justificou a ofensivacomo resposta a ameaças relacionadas ao programa nuclear e ao desenvolvimento de mísseis de longo alcance por parte de Teerã. O Irã, por sua vez, nega fins militares em seu programa nuclear.Em resposta, Teerã lançou mísseis contra Israele contra bases norte-americanas localizadas em países do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O conflito também se espalhou para áreas da Síria e do Líbano, com ações do Hezbollah contra Israel.
Como os Brics reagiram
O bloco é formado por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. As respostas foram divergentes:
Brasil
- O governo de Luiz Inácio Lula da Silva condenou inicialmente os ataques de EUA e Israel, defendendo a negociação como único caminho viável. Posteriormente, também condenou as retaliações iranianas contra países do Golfo, reforçando o apelo ao respeito ao direito internacional e à soberania dos Estados.
Rússia e China
- Vladimir Putin classificou os ataques como violação do direito internacional. A China também condenou firmemente a ofensiva contra o Irã, reiterando a defesa da soberania iraniana. Ambos mantêm relações estratégicas com Teerã — Moscou no campo militar e Pequim como grande compradora de petróleo iraniano.
Índia
- Sob a liderança de Narendra Modi, a Índia adotou postura mais cautelosa. Não condenou explicitamente os ataques iniciais contra o Irã e pediu contenção. Em seguida, criticou os ataques iranianos contra a Arábia Saudita. A Índia mantém relações próximas tanto com Israel quanto com os Estados Unidos.
Países árabes do bloco
- Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos evitaram condenar diretamente a ofensiva de EUA e Israel e focaram nas críticas às ações iranianas, sobretudo por terem sido atingidos pelas retaliações.
Por que não há posição conjunta?
Diversos fatores dificultam um consenso:
Interesses estratégicos conflitantes
- O Irã é membro do bloco, mas rival histórico de vários países árabes que também integram os Brics e são aliados tradicionais dos Estados Unidos.
Expansão recente do grupo
- A ampliação iniciada em 2023 aumentou a representatividade geográfica, mas também trouxe tensões internas, especialmente com a entrada de potências regionais com rivalidades históricas.
Presidência rotativa da Índia
- Em 2026, o bloco está sob liderança indiana, país com relações estratégicas tanto com Washington quanto com Tel Aviv, o que reduz a probabilidade de um posicionamento mais contundente contra EUA ou Israel.
Mudanças no cenário global sob Donald Trump
- A volta de Donald Trump à presidência dos EUA e sua política externa mais assertiva e unilateral teria levado diversos países a priorizarem estratégias nacionais em vez de coordenação multilateral.
O que o episódio revela sobre os Brics
A crise reforça que o bloco:
- Não funciona como aliança militar ou sistema de defesa coletiva.
- Opera como fórum político e econômico, não como pacto estratégico nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
- Enfrenta desafios para harmonizar interesses entre democracias, regimes autoritários, aliados dos EUA e adversários de Washington.
A ausência de uma nota conjunta, ao contrário do que ocorreu em crises anteriores, sinaliza perda de coesão política e redução da centralidade do bloco nas agendas externas de seus membros.
Limites da coesão e o desafio estrutural dos Brics
A guerra no Irã transformou-se em um teste de estresse para os Brics. O conflito expôs divergências profundas entre seus integrantes, especialmente após a expansão que incorporou rivais regionais ao mesmo fórum. Sem mecanismos de coordenação política mais robustos e diante de interesses geopolíticos conflitantes, o bloco demonstra limitações claras para agir de forma unificada em crises internacionais de alta intensidade. Mais do que um racha momentâneo, o episódio evidencia os desafios estruturais de um agrupamento diverso que busca relevância global sem abrir mão da autonomia estratégica de seus membros.
