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quinta-feira, 21 de agosto de 2025 às 12:16 GMT+0

Ideologia cega: Por que pessoas defendem o indefensável? Além da esquerda e direita - O que realmente importa quando a política falha

A democracia, por natureza, convive com uma diversidade de opiniões e posicionamentos, incluindo aqueles considerados radicais. No entanto, quando esses grupos passam a operar de forma sistemática para erodir a credibilidade das instituições que sustentam o estado democrático de direito, uma estratégia política perigosa se revela. O artigo do cientista social Hilton Cesario Fernandes, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), analisa precisamente como e por que a extrema-direita cultiva a falta de confiança nas instituições para obter benefícios eleitorais e políticos, usando o Brasil como estudo de caso. Este resumo detalha essa análise, explorando seus mecanismos, consequências e a complexidade de se combater esse fenômeno.

O modus operandi: Provocar, testar limites e se vitimizar

A estratégia da extrema-direita segue um roteiro claro e repetitivo, que pode ser detalhado em etapas:

  • Provocação e descumprimento de regras: A tática começa com afrontas deliberadas ao decoro parlamentar e ao ordenamento jurídico. O objetivo não é o debate, mas testar até onde as instituições podem ser pressionadas sem sofrer uma reação consequente.
  • Ação transgressora e espetacularização: Quando a provocação gera uma reação institucional, o grupo alega ser vítima de censura ou perseguição. Essa alegação serve então como justificativa para um ato de desobediência mais explícito e midiático, como ocupações de plenário, que são encenadas para maximizar a visibilidade.
  • Vitimização e construção do "herói": A narrativa final é a de que os "meios institucionais não funcionam" e que, portanto, a transgressão é a única forma legítima de protesto. Quem enfrenta as instituições é transformado em herói perante sua base de apoiadores.

O alvo principal: A confiança nas instituições democráticas

O objetivo final dessa estratégia não é uma crítica pontual, saudável para qualquer democracia, mas um desgaste proposital e generalizado da credibilidade de todas as instâncias de poder.

  • Alvos estratégicos: Ataques coordenados contra o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), a imprensa, as urnas eletrônicas e até mesmo as campanhas de vacinação. Cada ataque individual faz parte de um conjunto maior de ideias destinadas a minar a confiança.
  • Criação de um "inimigo único": Ao destruir a credibilidade das instituições, cria-se um vácuo de explicação para os problemas complexos da sociedade. Esse vácuo é preenchido pela teoria de um "grande conluio" ou arranjo maligno de políticos, juízes e midiáticos que controlaria tudo. Problemas como salários baixos, inflação ou frustrações pessoais são atribuídos a esse demônio abstrato, simplificando narrativas complexas e canalizando a frustração popular.

O combustível: O ecossistema de desinformação e a radicalização

Essa estratégia não prosperaria sem o ambiente adequado, amplificado pelas ferramentas de comunicação digital.

  • Papel das redes sociais: Conforme apontado pelo cientista político Giuliano da Empoli, citado no artigo, as redes sociais geram uma falsa sensação de que o cidadão não precisa mais de intermediários formais (como partidos ou a imprensa) para se informar ou mediar seus interesses. Isso facilita enormemente o discurso transgressor e anti-sistema.
  • Radicalização da base: Ao atacar o Congresso, por exemplo, os políticos de extrema-direita deterioram a imagem da instituição, mas, ironicamente, reforçam o apoio de sua base eleitoral, que vê nesses ataques uma coragem inédita contra um sistema corrupto.

As consequências: A naturalização do inusitado e a paralisia social

O sucesso dessa tática gera um ambiente social e político profundamente deteriorado:

  • Dúvida generalizada: O cidadão comum perde a capacidade de discernir o que é real, o que é verdadeiro e o que é aceitável dentro de uma democracia. Ações que antes seriam amplamente condenadas, como a ocupação do Congresso por parlamentares, não geram indignação generalizada porque as próprias instituições que deveriam ser defendidas já estão vistas como ilegítimas.
  • Aceitação da narrativa de perseguição: Pesquisas de opinião refletem esse cenário, dados do Datafolha realizado dias antes de uma ocupação, mostrou que 45% dos brasileiros acreditavam que Jair Bolsonaro estava sendo perseguido e injustiçado, um sinal claro de que a narrativa de vitimização foi eficaz para quase metade da população.

A difícil reconstrução: O desafio das instituições

Reverter esse quadro é um desafio monumental, pois exige um esforço das próprias instituições que foram minadas.

  • Estratégias de reconstrução: Caminhos como o aumento da participação social direta nas decisões, maior envolvimento popular nos processos políticos e uma transparência radical das esferas públicas. São ações que visam reconquistar a confiança pela via do fortalecimento democrático.
  • O obstáculo principal: Aqueles que se beneficiam do caos institucional e da desconfiança não têm interesse em reconstruir a democracia. Seu projeto de poder depende da manutenção da descrença e da polarização, garantindo votos de uma base radicalizada que anseia por um "salvador" do sistema.

"A história é a mestra mais severa, e seu veredito é claro e incontestável: o radicalismo cego, seja de direita ou de esquerda, é um caminho que sempre leva ao mesmo abismo. Quando a ideologia se torna uma fé dogmática e a razão é sacrificada no altar do fanatismo, o homem passa a defender o indefensável. O resultado nunca é a libertação, mas a catástrofe para o povo; nunca é a construção, mas a destruição do que é mais precioso: a dignidade humana, a convivência pacífica e o próprio futuro.
No fim, a política não deveria ser sobre extremos, mas sobre o centro de nossas necessidades mais básicas. Pois, independentemente da bandeira que se levante, o povo anseia pelas mesmas coisas: pão, paz, respeito e esperança. Qualquer movimento que, em nome de uma suposta causa maior, nos roube essas coisas, não merece ser chamado de revolução, mas de tragédia."

Um jogo perigoso com o futuro democrático

A análise de Hilton Cesario Fernandes revela que a erosão da confiança nas instituições não é um efeito colateral casual, mas uma estratégia política central e calculada de grupos de extrema-direita. Através de um ciclo de provocação, vitimização e transgressão espetacularizada, esses grupos criam um terreno fértil para o populismo, onde soluções simplistas e líderes autoproclamados anti-sistema prosperam. O grande perigo reside na naturalização desse comportamento, que paralisa a sociedade e dificulta a distinção entre o que é democrático e o que é autoritário. A reconstrução da confiança é possível, mas é uma tarefa árdua que exige um compromisso genuíno com o aprofundamento da democracia, justamente o oposto do que desejam aqueles que lucram com sua destruição. O futuro da convivência democrática depende da capacidade de as instituições e a sociedade reconhecerem e contrapor-se a essa estratégia de forma clara e vigorosa.

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