STM julga expulsão de militares: Sem farda e sem salário? O que esperar do julgamento de Bolsonaro, Heleno e Braga Netto
O Ministério Público Militar (MPM) formalizou em 3 de fevereiro de 2026 um pedido ao Superior Tribunal Militar (STM) para que seja declarada a perda do posto e da patente de cinco figuras centrais da reserva e do antigo governo. O pedido atinge o ex-presidente e capitão Jair Bolsonaro, o almirante Almir Garnier e os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto.
Esta movimentação é um desdobramento direto da condenação desses militares pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ocorrida em setembro de 2025, por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Agora, o STM deve decidir se eles possuem "indignidade para o oficialato", o que, na prática, significa a expulsão definitiva das Forças Armadas.
Os oito pilares da ética militar violados
Segundo o procurador-geral de Justiça Militar, Clauro Roberto de Bortolli, a conduta de Bolsonaro e dos generais feriu preceitos fundamentais da vida militar. A representação elenca os seguintes pontos de ruptura ética:
1. Quebra de probidade e vida ilibada:
- O uso da estrutura pública para objetivos inconstitucionais.
2. Ataque à dignidade humana:
- A tentativa de conduzir o país a um regime de exceção.
3. Desobediência às leis e autoridades:
- O descumprimento deliberado de ordens da Suprema Corte e do Tribunal Superior Eleitoral.
4. Falta de preparo moral:
- Condutas que espelham imoralidade frente aos princípios de honestidade esperados.
5. Ausência de camaradagem:
- Promoção de ataques a militares que não aderiram ao movimento golpista, rotulando-os como traidores.
6. Falta de discrição e educação:
- O uso de termos como "canalhas" para se referir a membros de outros Poderes.
7. Desrespeito à autoridade civil:
- A tentativa de inverter a lógica de submissão do poder militar ao poder civil.
8. Descumprimento dos deveres de cidadão:
- A falha em respeitar a Constituição e o resultado das urnas.
O que está em jogo no julgamento do STM
Diferente do julgamento do STF, o STM não analisará se os crimes foram cometidos, isso já está decidido. O foco do tribunal militar é um julgamento de honra e moral. Os ministros decidirão se um oficial condenado por tais crimes ainda é digno de ostentar suas insígnias.
- Ineditismo: É a primeira vez que generais do Exército e um ex-presidente enfrentam esse tipo de processo no STM.
- Composição dos relatores: Cada réu terá um relator e um revisor específicos. Por exemplo, o caso de Jair Bolsonaro será relatado pelo ministro Carlos Vuyk de Aquino, com revisão da ministra Verônica Abdalla Sterman.
- Prazos: Embora a Justiça Militar seja considerada ágil, a expectativa é que o desfecho ocorra até o final de 2026, dado o peso político e a visibilidade dos envolvidos.
Consequências práticas: Da prisão ao salário
Caso o STM acolha o pedido do MPM, as punições vão além da perda do título:
- Transferência de prisão: Sem a patente, os condenados perdem o direito de permanecer em unidades militares, podendo ser transferidos para presídios comuns.
- A questão da "Morte Ficta": Tradicionalmente, militares expulsos são considerados "mortos" para fins administrativos, o que permite que suas famílias recebam pensão. No entanto, há um forte movimento jurídico e político para substituir esse benefício pelo auxílio-reclusão ou até extinguir o pagamento, dependendo de novas legislações e entendimentos do TCU.
- Impacto financeiro: Os valores brutos envolvidos são significativos. Generais como Augusto Heleno e Braga Netto recebem valores na casa dos
R$ 37 mil a R$ 38 mil, enquanto o soldo de Bolsonaro como capitão é de aproximadamenteR$ 12,8 mil.
O julgamento no Superior Tribunal Militar representa o capítulo final da relação desses oficiais com as instituições que serviram por décadas. Mais do que uma punição administrativa, a decisão do tribunal servirá como um termômetro sobre como as Forças Armadas pretendem lidar com a politização de suas fileiras e o respeito à hierarquia constitucional. A imparcialidade dos ministros, agora sob o olhar atento da sociedade, será o ponto central para a manutenção da credibilidade da Justiça Militar.
