"Trump não suporta perdedores": Análise dura de John Feeley sobre o fim da aliança com Bolsonaro
A diplomacia sob Donald Trump é frequentemente descrita como um terreno instável, onde alianças pessoais podem ser desfeitas rapidamente com base em resultados políticos e percepções de poder. De acordo com John Feeley, o recente distanciamento entre o presidente americano e Jair Bolsonaro reflete uma característica central do comportamento de Trump: a aversão a figuras que perderam relevância eleitoral ou jurídica.
O fator "perdedor" na ótica de Trump
Para o ex-embaixador, a mudança de postura de Trump em relação a Bolsonaro não é fruto de uma análise estratégica profunda sobre o Brasil, mas sim de uma reação visceral ao declínio político do ex-presidente brasileiro.
- Aversão à derrota: Feeley afirma que, uma vez que Bolsonaro foi condenado e tornou-se inelegível, Trump passou a vê-lo como um "perdedor". Na filosofia pessoal de Trump, não há espaço para alianças com quem não detém mais o poder.
- Desinteresse geopolítico: O diplomata destaca que o Brasil raramente é uma prioridade na agenda diária de Trump. O interesse anterior era puramente cínico e focado na exploração de valores conservadores comuns para o seu próprio público doméstico.
O lobby e a instabilidade das sanções
A aplicação e a posterior retirada de tarifas comerciais contra o Brasil, bem como as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, são interpretadas por Feeley como provas da natureza errática da atual gestão americana.
- Influência do lobby: As medidas punitivas iniciais teriam sido resultado direto da pressão exercida por Eduardo Bolsonaro e lobistas em Washington, e não de uma estratégia de Estado planejada.
- A "sorte" de Lula: O recuo de Trump nas sanções e tarifas é visto mais como um golpe de sorte do governo brasileiro do que necessariamente uma vitória diplomática estruturada. Feeley sugere que o melhor caminho para líderes internacionais é manter-se fora da órbita pessoal e imprevisível de Trump.
A crise na Venezuela e o poder militar
Sobre a tensão crescente entre Washington e Caracas, Feeley analisa as táticas de sufocamento econômico e as possibilidades de conflito:
- Bloqueio naval: O diplomata considera o bloqueio a petroleiros mais eficaz do que operações anteriores. Ele ressalta que a miséria venezuelana é causada primariamente pelo modelo econômico de Nicolás Maduro, embora as sanções agravem o isolamento.
- Limites da intervenção: Apesar da retórica agressiva, Feeley duvida de uma invasão terrestre total na Venezuela. Ele acredita que Trump evitará arriscar recursos e vidas americanas antes das eleições de meio de mandato de 2026, preferindo demonstrações de poder "performáticas", como ataques cirúrgicos com mísseis.
O Brasil como exemplo democrático
- Mesmo em meio a tensões, o Brasil é citado por Feeley como um modelo de resiliência institucional. Ele destaca que o sistema judiciário brasileiro demonstrou uma capacidade de impor limites ao Poder Executivo que serve de lição para outras democracias. Para o diplomata, o valor do Brasil hoje não reside em ser um mediador entre Trump e Maduro, mas em fortalecer suas próprias instituições e relações comerciais.
A análise de John Feeley projeta um cenário onde a diplomacia pessoal substitui os canais institucionais tradicionais. O descarte de Jair Bolsonaro por Donald Trump exemplifica uma política externa baseada em conveniência e força, onde aliados são mantidos apenas enquanto podem oferecer vitórias políticas. Para o Brasil e outros países da região, o desafio permanece em navegar pela imprevisibilidade de Washington, protegendo suas instituições e evitando o alinhamento total com líderes que priorizam o personalismo sobre os interesses de Estado.
