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quinta-feira, 28 de agosto de 2025 às 15:19 GMT+0

Cheiro de doença? Além do nariz humano - A ciência que usa o odor para diagnosticar Parkinson, câncer e outras doenças

O corpo humano é uma máquina complexa que se comunica de diversas formas. Uma das mais fascinantes e, até agora, subutilizadas é através do odor. Sabe-se que cheiros específicos podem ser biomarcadores poderosos para o diagnóstico precoce de várias doenças, desde condições neurodegenerativas a infecciosas.
Este artigo explora como a ciência está traduzindo a incrível sensibilidade do olfato para a medicina moderna, abrindo um novo horizonte para a saúde.

Como tudo começou: O olfato incrível de Joy Milne

  • A jornada científica neste campo ganhou notoriedade com a história de Joy Milne, uma escocesa com hiperosmia, uma condição que lhe dá um sentido de olfato excepcionalmente aguçado. Anos antes de seu marido, Les, ser diagnosticado com Parkinson, ela percebeu um odor almiscarado distinto nele. Sua suspeita foi confirmada ao frequentar um grupo de apoio, onde todos os pacientes apresentavam o mesmo cheiro característico.

  • Cética, a comunidade científica decidiu testar sua alegação. Em um estudo cego com camisetas usadas, Joy identificou com perfeição os pacientes com Parkinson e, de forma surpreendente, "cheirou" a doença em uma pessoa que só seria diagnosticada um ano depois. Essa descoberta provou a existência de um biomarcador olfativo para a doença.

A ciência por trás do cheiro de doença: COVs

  • A explicação para esse fenômeno reside nos Compostos Orgânicos Voláteis (COVs). Eles são metabólitos que o nosso corpo produz e libera continuamente através do suor, hálito, urina e outras secreções. Quando uma doença seja ela infecciosa, neurodegenerativa ou cancerígena se instala, ela altera o metabolismo do corpo. Essa mudança se reflete na quantidade e no tipo de COVs produzidos, criando uma "assinatura" odorífera única para cada condição.

Vantagens de um diagnóstico através do olfato

  • Diagnóstico precoce e não invasivo: A capacidade de detectar doenças em seus estágios iniciais, antes mesmo do surgimento de sintomas graves, pode revolucionar o prognóstico de muitas condições, permitindo intervenções mais eficazes.
  • Acessibilidade e velocidade: Em contraste com métodos tradicionais que podem ser invasivos, demorados e caros (como biópsias), os testes baseados em odor prometem ser rápidos, acessíveis e de baixo custo, podendo ser realizados em consultórios médicos.
  • Monitoramento da doença: A tecnologia não se limita ao diagnóstico. Poderia ser usada para monitorar a progressão de uma doença ou a resposta a um tratamento, permitindo ajustes em tempo real com base nas mudanças na "assinatura" olfativa do paciente.

Doenças com "cheiro" conhecido e o futuro da pesquisa

Algumas doenças já são conhecidas por produzir odores detectáveis pelo nariz humano. Por exemplo:

  • Diabetes: Um hálito com cheiro frutado (maçã estragada) indica cetoacidose.
  • Doenças hepáticas: Um odor sulfuroso ou de mofo no hálito.
  • Doenças renais: Um hálito com cheiro de amônia ou urina.
  • Infecções: A tuberculose confere ao hálito um cheiro de cerveja estragada.

A pesquisa atual, no entanto, vai além do que o nariz humano pode perceber. Cães, com um olfato até 100 mil vezes mais sensível, já são treinados para farejar cânceres (próstata, mama, ovário), malária e até prever convulsões epiléticas. Cientistas estão buscando replicar essa capacidade canina em laboratório.

O futuro: Narizes artificiais e inteligência artificial

  • O próximo grande avanço tecnológico está no desenvolvimento de "narizes eletrônicos" ou "narizes artificiais". Eles prometem replicar a capacidade do olfato biológico com uma tecnologia de ponta.
  • Um exemplo é a tecnologia que incorpora receptores olfativos humanos reais, acoplados a algoritmos de aprendizado de máquina. Esse sistema não apenas detecta moléculas, mas interpreta padrões de odor para identificar a "impressão digital" de doenças.

A pesquisa sobre odores corporais e saúde está abrindo um novo capítulo na medicina. A história de Joy Milne não é apenas uma curiosidade, mas uma prova de conceito poderosa, que nos lembra que o corpo emite uma riqueza de informações que estamos apenas começando a decifrar sistematicamente. No futuro, uma visita ao médico poderá incluir um simples e indolor teste de "cheiro", revolucionando a forma como prevenimos, diagnosticamos e tratamos doenças.

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