Estudo da USP: A armadilha dos ultraprocessados - Por que seu cérebro não consegue parar de comer?
Você já sentiu que, ao abrir um pacote de salgadinhos ou um pote de sorvete, é quase impossível parar de comer até chegar ao fim? Isso não é falta de força de vontade. É ciência, mas uma ciência voltada para o lucro, não para a sua saúde.
O epidemiologista brasileiro Carlos Augusto Monteiro, da USP, tornou-se uma das figuras mais influentes do mundo ao provar que o maior vilão da nossa dieta não é apenas o açúcar ou a gordura isolados, mas o ultraprocessamento. Em 2026, seu trabalho é a base das leis de alimentação em dezenas de países e foi destaque em uma edição especial do prestigiado periódico The Lancet.
Comida de verdade vs. Produtos de laboratório
Para facilitar a compreensão, Monteiro e sua equipe criaram a classificação NOVA. Ela separa o que é alimento do que é uma construção industrial. Os ultraprocessados não são apenas "comidas modificadas"; são formulações criadas a partir de substâncias extraídas de alimentos (como óleos, amidos e proteínas isoladas) e turbinadas com aditivos químicos.
Exemplos comuns que fingem ser comida:
- No café da manhã: Cereais matinais coloridos, pães de forma "de shopping" que nunca mofam, margarinas e iogurtes com "sabor" de fruta que não contêm a fruta real.
- No almoço ou jantar rápido: Macarrão instantâneo (o famoso lámen), nuggets de frango, salsichas, lasanhas congeladas e sopas de pacote.
- Nos lanches e sobremesas: Salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, barras de cereal cheias de xarope de milho, sorvetes de massa industriais e balas de goma.
- Bebidas: Refrigerantes, sucos de caixinha (néctares), sucos em pó e bebidas energéticas.
O sequestro do seu apetite
- Por que um tomate não vicia, mas um biscoito recheado sim? A resposta está na hiperpalatabilidade. A indústria utiliza uma combinação precisa de gordura hidrogenada, açúcar, sal e aromatizantes para criar um sabor que não existe na natureza.
- Esses produtos são feitos para serem consumidos rapidamente e sem esforço. Enquanto uma refeição de arroz, feijão e salada exige mastigação e envia sinais de saciedade ao cérebro em cerca de 20 minutos, um ultraprocessado é "pré-digerido" mecanicamente. Isso faz com que você coma uma quantidade enorme antes que o seu cérebro entenda que o estômago já está cheio.
O peso invisível das 500 calorias
Um estudo fundamental conduzido nos Estados Unidos, e citado por Monteiro, trouxe um dado alarmante: pessoas que vivem uma dieta baseada em ultraprocessados consomem, em média, 500 calorias a mais por dia do que aquelas que comem alimentos naturais.
Para se ter uma ideia do impacto:
500 caloriasrepresentam cerca de 25% de toda a energia que um adulto precisa para o dia inteiro.- Em apenas duas semanas de consumo frequente, os participantes do estudo ganharam
um quilo de peso. - O consumo excessivo confunde o metabolismo e está ligado a mais de
32 doenças crônicas, incluindo depressão, diabetes e problemas no coração.
O novo "cigarro": De vilão das dietas a problema de saúde pública
Carlos Augusto Monteiro argumenta que não podemos colocar a culpa apenas na escolha individual. O modelo de negócio dessas empresas é baseado em ingredientes extremamente baratos (milho, soja e palma) transformados em produtos irresistíveis com marketing agressivo.
Por isso, ele defende que os ultraprocessados devem seguir o caminho do controle do tabagismo:
- Impostos elevados: Para que o produto nocivo não seja a opção mais barata.
- Alertas claros: Como os selos de "alto em açúcar ou gordura" que já vemos em alguns países.
- Proteção às crianças: Proibição de propagandas e personagens infantis em embalagens de produtos que viciam o paladar desde cedo.
A mensagem de Carlos Augusto Monteiro é um chamado para olharmos além do rótulo nutricional. Estamos trocando a nossa cultura alimentar e o prazer de cozinhar por um simulacro de comida que adoece o corpo e a mente. Priorizar alimentos frescos e minimamente processados não é apenas uma dieta, é um ato de proteção à vida e à saúde pública global.
