A polícia é racista? Estudo revela como policiais militares enxergam o racismo e discriminação nas ruas e nos batalhões

Uma pesquisa acadêmica inovadora, conducida pelo professor Lenin dos Santos Pires da Universidade Federal Fluminense (UFF) e financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), mergulhou no universo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) para investigar um tema complexo: como os próprios policiais militares percebem e interpretam as questões de racismo e discriminação, tanto em suas ações nas ruas quanto no ambiente interno dos batalhões. O estudo, de natureza etnográfica, baseia-se em entrevistas e observações para compreender as representações e justificativas construídas pelos agentes de segurança, oferecendo um retrato rico e nuances de uma instituição fundamental para a sociedade.
A visão dos policiais sobre o racismo na sociedade e em sua atuação
A pesquisa parte de uma constatação crucial: os policiais não ignoram a existência do racismo na sociedade, reconhecendo-o como uma problemática real. No entanto, sua interpretação sobre como ele se manifesta em seu trabalho é despida de complexidade histórica e social.
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O estudo revela um processo de naturalização da violência racial. Os policiais tendem a associar a criminalidade diretamente à pobreza, que, por sua vez, tem cor no Brasil. Como a maioria da população nas áreas mais pobres e violentas é negra (preta e parda), o fato de serem a maioria das vítimas de abordagens, prisões e mortes é visto como uma consequência óbvia da
"desigualdade social"
, e não de uma ação policial seletiva ou de um racismo estrutural. -
Essa visão é confrontada com dados objetivos. O estudo cita o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, que mostra a brutal desproporção: negros representam 82% dos mortos em intervenções policiais e 68,7% da população carcerária. A pesquisa demonstra como uma narrativa internalizada (
"prende-se e mata-se mais negros porque há mais negros na criminalidade
") serve para mascarar e justificar um resultado profundamente desigual e violento.
A negação do racismo interno e a ideologia do "azul"
Internamente, a PMERJ se vê como uma instituição democrática, e os próprios policiais usam sua composição majoritariamente negra e originária de periferias como prova disso. A existência de discriminação dentro da corporação é frequentemente negada ou reinterpretada.
- Os entrevistados masculinos frequentemente explicam eventuais insultos e tratamentos degradantes durante o treinamento como uma tática para
"testar a resistência psicológica"
dos recrutas, e não como racismo. A partir da formatura, surgiria a ideologia do "azul": a cor do uniforme supostamente apagaria todas as outras cores, criando uma igualdade fictícia entre todos. No entanto, a pesquisa também capta a contradição dessa narrativa, com alguns admitindo que há os "azuis escuros" (oficiais e tropas de elite), indicando que hierarquia e classe social dentro da corporação ainda importam.
A intersecção inédita: Racismo, gênero e assédio dentro dos quartéis
Um dos achados mais significativos e inéditos da pesquisa diz respeito às experiências das praças do gênero feminino, as "fems".
- O estudo expõe como o racismo se entrelaça com o machismo e o assédio de forma perversa. Mulheres negras são hiperssexualizadas dentro do ambiente militar, com seus corpos e traços físicos sendo alvo de "elogios" fetichistas. Quando rejeitam avanços, o assédio sexual frequentemente se transforma em assédio moral e discriminação racial explícita. Seus cabelos crespos são criticados por "não caberem no quepe", e elas são punidas com a designação para serviços subalternos, como limpeza e cozinha, uma prática que não é aplicada da mesma forma às policiais brancas. Isso revela uma camada profunda de opressão dentro da instituição.
Os mecanismos de controle e opressão interna: o "R-Quero" e a "escravidão" do RAS
A pesquisa vai além do discurso e analisa as ferramentas institucionais que perpetuam a discriminação e a exploração interna.
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O Regime Disciplinar (conhecido pejorativamente como "R-Quero") é revelado como um instrumento de poder discricionário e arbitrário nas mãos dos oficiais. Sua aplicação é imprevisível e serve para punir, coagir e "quebrar" praças por supostas faltas, consolidando uma hierarquia baseada no medo e não no mérito.
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O Regime Adicional de Serviço (RAS), ironicamente chamado de "escravidão" pelos policiais, é outro pilar de exploração. Apesar de ser formalmente voluntário e remunerado, a pesquisa mostra que os baixos salários base obrigam os policiais a trabalharem horas extras incessantes (até 120 horas por mês) para complementar a renda, sacrificando seu descanso e saúde mental. A gratificação é considerada irrisória para os riscos e o estresse da profissão, e o regime pode se tornar compulsório em certas situações, caracterizando uma relação de trabalho coercitiva.
Uma instituição que reflete e reproduz as contradições sociais
O estudo do professor Lenin Pires conclui que a PMERJ é um microcosmo das complexidades e contradições brasileiras. Majoritariamente composta por negros e pessoas de origem pobre, a corporação, paradoxalmente, é um espaço onde o racismo e a discriminação são reproduzidos, tanto externamente, por meio de uma ação policial seletiva justificada por uma lógica classista, quanto internamente, através de mecanismos hierárquicos abusivos, assédio e exploração laboral. A pesquisa levanta uma reflexão profunda: qual o efeito social de ter uma força de segurança que, embora formada por grupos historicamente marginalizados, opera sob uma lógica que perpetua a violência contra esses mesmos grupos? O caminho para mudança, sugere o estudo, começa pelo reconhecimento dessas complexidades, indo além da simplória negação ou da justificativa fácil, para enfrentar as estruturas de poder e os mecanismos institucionais que perpetuam a discriminação dentro e fora dos batalhões.