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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025 às 10:59 GMT+0

BBC Africa Eye expõe o comércio de partes humanas em Serra Leoa - 'Não tem parte do corpo com que a gente não trabalhe'

Uma investigação profunda da equipe BBC Africa Eye revelou um mercado clandestino alarmante em Serra Leoa, onde a crença em rituais de magia (conhecidos localmente como juju) alimenta uma rede de assassinatos e comércio de órgãos.

O custo humano: Famílias em busca de respostas

O impacto dessas práticas é sentido em comunidades devastadas pela perda e pela impunidade:

  • O caso Papayo: Um menino de 11 anos que desapareceu enquanto vendia peixes. Seu corpo foi encontrado mutilado em um poço, sem órgãos vitais e olhos. Quatro anos depois, ninguém foi punido.
  • A tragédia de Fatmata Conteh: Uma cabeleireira de 28 anos, morta logo após seu aniversário. Seu corpo foi descartado em uma estrada com sinais de mutilação. A família pagou a autópsia por conta própria, mas o resultado foi inconclusivo.
  • O silêncio das autoridades: A ausência de investigações rigorosas gera um sentimento de abandono e terror constante entre as famílias mais pobres do país.

Por dentro da rede clandestina

A equipe da BBC utilizou um infiltrado (sob o pseudônimo "Osman"), que se passou por um político interessado em rituais para obter poder. A investigação revelou fornecedores ativos:

  • Kanu (Distrito de Kambia): Operando em um santuário isolado, ele afirmou atender políticos influentes de diversos países africanos. Exibiu um crânio humano e estipulou o preço de um corpo feminino em cerca de US$ 3 mil.
  • Idara (Subúrbio de Waterloo): Afirmou liderar uma rede de 250 colaboradores. Durante a infiltração, ele indicou que sua equipe saía à noite para "caçar" vítimas conforme a demanda.

O panorama global: O tráfico de órgãos no mundo em 2025

O crime em Serra Leoa faz parte de uma economia criminosa global que explora a vulnerabilidade humana:

  • Escassez global: A OMS estima que os transplantes legais cobrem menos de 10% da demanda mundial. Esse vácuo alimenta um mercado negro que movimenta entre US 840 milhões e US 1,7 bilhão anualmente.
  • Órgãos mais visados: O rim é o órgão mais comercializado ilegalmente (cerca de 75% dos casos), seguido por fígados e córneas. Em redes internacionais, um rim pode custar mais de US$ 60 mil para o receptor, enquanto o doador recebe apenas uma fração mínima.
  • O "turismo de transplantes": Criminosos organizam viagens onde pacientes de países ricos encontram doadores vulneráveis em países com leis frágeis ou fiscalização precária.
  • Métodos de coação: Ao contrário dos mitos de sequestros aleatórios, o tráfico global muitas vezes utiliza o engano econômico, promessas falsas de emprego ou manipulação de pessoas em extrema pobreza e refugiados.

Obstáculos à justiça em Serra Leoa

A investigação identificou por que esses crimes raramente resultam em condenações no país:

  • Falta de recursos técnicos: Em um país com quase 9 milhões de habitantes, existe apenas um médico patologista disponível, dificultando a coleta de provas científicas.
  • Barreiras culturais: Muitos policiais compartilham crenças na feitiçaria, o que gera medo de retaliação mística e paralisa investigações contra herbalistas.
  • Subnotificação: Assassinatos para rituais não possuem categoria específica nos registros oficiais, sendo muitas vezes classificados como acidentes ou mortes naturais.

Curadores Tradicionais vs. Criminosos

  • Dependência da saúde: Com poucos médicos registrados, a população depende de 45 mil curadores tradicionais para tratamentos básicos.
  • Defesa da classe: Lideranças de curadores tradicionais afirmam que os assassinos são "maçãs podres" que mancham a reputação da medicina ancestral em troca de dinheiro e influência política.

Vídeo BBC: 'Não tem parte do corpo com que a gente não trabalhe': BBC investiga comércio clandestino na África

O desfecho da operação

Após a denúncia da BBC, a polícia prendeu Idara em Waterloo. Ele foi encontrado escondido no teto de sua casa com uma faca, além de restos mortais e cabelos humanos no local. Idara e seus cúmplices foram liberados sob fiança em junho de 2025 e aguardam o desenrolar das investigações.

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