Relacionamentos abertos dão certo? Por que casais felizes optam pela não monogamia - Verdades, mitos e cuidados antes de abrir uma relação
A sexóloga, doutora em Educação e escritora Ilana Eleá propôs ao marido a abertura do casamento após dez anos de união. Vivendo hoje um "relacionamento misto", ela compartilha insights e orientações, reforçando que abrir a relação para consertar algo que não está bom não funciona.
O mundo das não monogamias consensuais (NMC)
O termo Não Monogamia Consensual (Consensual Non Monogamy) é um conceito guarda-chuva que abrange todas as formas de relacionamento que, com o consentimento de todos os envolvidos, flexibilizam a ideia de exclusividade (afetiva, erótica, romântica ou sexual).
- Pluralidade de práticas: Práticas como Swing (troca de casais), Relacionamento Aberto e Poliamor cabem sob o conceito, desde que sejam consensuais.
- Monogamia compulsória: Ilana Eleá argumenta que ninguém nasce monogâmico. A monogamia compulsória é um sistema social imposto que presume a exclusividade como a única forma "nobre" de amar. A NMC convida à escolha do formato relacional.
- Estatísticas: Cerca de 5% a 7% da população adulta em regiões como Europa, EUA e Canadá já vive alguma forma de NMC.
3 passos essenciais antes da abertura
Para uma transição saudável, a sexóloga recomenda um tripé fundamental que prioriza a autodescoberta e a comunicação.
1. Inventário emocional (O diálogo interno)
Olhe para si antes de conversar com o parceiro(a):
- Identifique as forças do relacionamento atual e o que está faltando.
- Explore suas curiosidades, desejos e, crucialmente, seus limites.
- Questione o que é hábito e se você teria escolha.
2. Diálogo e acordos (A base do consenso)
Abertura exige, antes de tudo, a abertura do diálogo e a definição de limites.
- Defina como a relação será aberta (com quem, até onde, em que situações).
- Evite o modelo "don't ask, don't tell" (não pergunte, não conte), pois ele geralmente falha por falta de sinceridade.
- O ritmo de cada um deve ser respeitado; a abertura deve ser consensual, nunca imposta.
3. Rede de apoio e conhecimento
- Busque informação e comunidade para lidar com os desafios e o estigma.
- Eduque-se e procure redes de apoio e grupos que se organizam em torno do seu interesse (swing, poliamor, etc.).
- Busque acompanhamento terapêutico com profissionais de visão pluralista.
Vínculos e configurações na prática
A NMC varia no grau de envolvimento afetivo e prioridade entre parceiros.
Relacionamento aberto
- Foco: Flexibilidade sexual, geralmente para encontros casuais/recreativos.
- Vínculo: Tende a limitar o envolvimento romântico ou a paixão.
- Prioridade: A entidade casal é mantida como hierarquia e prioridade principal.
Poliamor
- Foco: Nutrir vínculos amorosos, duradouros e românticos com múltiplas pessoas.
- Vínculo: Inclui o amor e a paixão (a NRE - New Relationship Energy).
- Vertentes: Pode ser hierárquico (definindo um casal principal) ou não Hierárquico (priorizando a relação conforme a necessidade, sem um parceiro fixo em primeiro lugar).
Anarquia relacional
- É uma ideia mais radical, crítica a "rótulos" e "etiquetas" nos relacionamentos.
- Questiona a centralidade da entidade casal e defende que a amizade não deve ser diferente de um relacionamento amoroso.
Relacionamento misto
- É um acordo adaptável onde, por exemplo, um parceiro pode preferir o sexo casual, enquanto o outro se permite envolvimentos românticos, combinando as duas abordagens.
Medo e comunicação contínua
Enfrentando o medo
O medo (de ser traído, trocado) é inerente ao ser humano. A NMC exige que se jogue luz sobre esses medos para que possam ser dialogados.
- Paixão vs. Amor: A NMC ajuda a entender que a paixão (relacionada à dopamina) e o amor/segurança (relacionado ao apego) ativam áreas cerebrais diferentes e podem coexistir.
- Aftercare: O "cuidado que vem depois" de um encontro é uma prática vital para reafirmar o vínculo principal e a segurança emocional.
Comunicação é radical
A comunicação é o ponto mais crucial. A comunicação é contínua, não se limita a um acordo inicial.
- Ajuste de rota: O casal deve revisitar os acordos e sentimentos constantemente ("me senti mal", "gostei disso", "preciso de mais atenção"), permitindo que a relação avance ou recue conforme a necessidade de ambos.
- Motivação: Pessoas em NMC tendem a conversar 500 mil por cento mais sobre a relação do que as monogâmicas, tornando a comunicação um pilar.
A grande lição é que o "amor verdadeiro" não tem um formato único. Ele se manifesta na capacidade de construir, em conjunto, um arranjo relacional que traga realização, respeito e felicidade para todos os envolvidos, seja na exclusividade a dois ou na vastidão consentida de múltiplos amores. A proposta final é a de que todos possam ter o direito e a liberdade de escolher, negociar e viver o amor de forma mais autêntica.
